Daniel Rocha

2014: faz-me um filho

Fazer um filho está a tornar-se mais difícil do que engolir um sapo, sem ser como força de expressão. Não é assim tão simples fazer um bebé. Os bebés não vêm de Paris, na história das cegonhas só cai quem acredita no Pai Natal e, quanto à sementinha, esta custa mais a encontrar do que a plantar. É pois, literalmente, duro fazer um filho.

O ano passado, dois hospitais andaram a reclamar para si o nascimento do primeiro bebé do ano. Por enquanto, ainda há bebés a nascerem no primeiro dia do ano, mas não me surpreende que, mais ano menos ano, o título vá para um bebé nascido em Agosto.

Com este cenário de disputa de bebés, e para incentivar a natalidade, algumas câmaras municipais começaram a oferecer dinheiro a quem fizer filhos, na sua terra. Por exemplo, faz-se um bebé e pode-se receber 500 euros em Paredes de Coura. Quem arriscar ir ao terceiro rebento recebe o dobro. Parece difícil de acreditar que, juntando este incentivo ao famoso festival da região, não tenha havido um baby boom entre os jovens desta autarquia.

São já medidas desesperadas, porque algumas câmaras estão mesmo “desbebezadas”. Não têm novos munícipes que, daqui a uns anos, tomem conta dos velhos munícipes. Porque isto dos novos e dos velhos é suposto ser uma pescadinha de rabo na boca. Caso contrário, os parques infantis serão futuros aposentos dos tempos livres dos mais séniores: “O senhor que não chegou a ser avô partiu o último dente no escorrega porque a sua esposa ganhou balanço a mais no baloiço e foi cair em cima dele”.

Pois eu não recebi incentivo nenhum e só não paguei para ter a minha filha porque fui para um hospital público. Bem, na verdade a Laura custou-me um donut, pouco mais que um euro, trazido da cafetaria. Foi tudo o que gastei no seu nascimento. Mas pagava, e pagava bem, se tivesse de ser. Mas o cerne da questão não está no parto ou nas fraldas, está nas creches: a maioria, diria que absoluta, são caras, têm lista de espera e só não dão tau tau aos papás que se atrasam a ir buscar os miúdos porque lhes cobram cada minutinho extra. De facto, as pessoas não têm filhos porque blá blá blá a conversa do individualismo, blá blá blá a conversa da profissão, mas estou convencida que é tão simples quanto a expressão: não há dinheiro, não há palhaços.

A segunda passa da meia-noite vai para a Laura, um dos quase 80 mil bebés, segundo as previsões de fecho deste ano, nascidos em Portugal. Como já cá está, vou ter de repartir os desejos das minhas passas com ela. É que não conheço bebés que comam passas-uva. Foram 38 anos a pedir desejos só para mim. Tinha muitas coisas a desejar, ideias nunca me faltaram e, confesso, não gastei nenhuma passa a pedir a paz no mundo.

Pedia saúde, enquanto fumava um cigarro e punha o dedo na baba de camelo, e implorava por manter o subsídio de férias, garante de continuar a ver o mundo um bocadinho mais ali à frente do meu nariz. E claro, anos houve em que pedi o mais clássico dos anseios da mulher pós-trinta-quase-quarenta-meu-deus: quero um filho. Ainda estou para perceber como é que não tive quadrigémeos. Sim, porque há desejos que repetimos todos os anos.

Começamos a ficar “passados” quando perdemos as nossas passas. Ou seja, quando nos apercebemos que estamos a envelhecer pois já não sonhamos só para nós. Os filhos são os primeiros a substituírem-nos os sonhos. Depois, lá para os oitenta, quando nem dentes tivermos para mastigar as passas com determinação, serão todas destinadas para pedidos a favor de pessoas de quem iremos gostar na altura. Que já se sabe, ironicamente, metade delas não serão as mesmas pessoas do presente.

A percentagem de casais com filhos baixou, somos um dos países com a taxa de natalidade mais baixa da União Europeia, pelo que duas ideias me ocupam o pensamento. Primeira: é uma sorte ter sido mãe. Segunda: provavelmente, não vou ser avó.

Portanto, urgem condições, campanhas, incentivos, abonos, subornos, medidas vale-tudo e mais um par de tomates destemido para se fazerem bebés. É preciso também mais amor. Para podermos dizer ano novo, filho novo. E não filhos zero.

Esta passagem de ano é pois para brindar aos bebés. Porque não é todos os anos que se fazem filhos. Mas com Champomy é que não me apanham de certeza.