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Quando nasce um filho, "moribunda-se" um marido

Por vezes, quando nasce um filho, moribunda-se um marido. É o chamado maribundo. Há toda uma vida conjugal que fica, temporariamente, interrompida. Porque entram dois na maternidade, mas saem três. O carro do casal, quitado com a placa do bebé a bordo, arranca para casa com o lugar do passageiro da frente vazio. A senhora mãe acomoda os quadris, agora mais largos, no banco de trás, ao lado do bebé. E o senhor pai assume as mãos nervosas ao volante, longe de imaginar que nos próximos meses será o motorista de serviço. Um Jarbinhas com jargão controlado, sem bombom e sem taxímetro.

Em casa, o quarto do casal passa a triplo. O marido só não dorme no berço porque não cabe, caso contrário quantas mães enfiariam os filhos na cama ao seu lado. Na televisão, o comando disputa-se entre os canais de desporto e os bonecos animados. Para que o bebé, que mal abre os olhos e pouco mais vê que umas manchas, possa entreter-se. E ir à cozinha, escolher livremente uma peça de fruta, tem o seu quê de pecado. "Não estou a acreditar! Foste tu que comeste a pera que estava aqui na fruteira a amadurecer para o bebé?"

Para os maridos edipianos que, num passado longínquo e feliz, escolheram a esposa porque esta lhes lembrava a mãe, esta é a fase em que ficam de queixo caído a processar a informação de que o bebé não é um irmão preferido. A comunicação marital é também mais confusa para aqueles casais que têm por hábito tratar-se carinhosamente por Bebé. A esposa diz "Bebé, vamos tomar banhinho?" e o marido vai para o duche sozinho.

Os créditos do marido perdem validade ou são transferidos, de imediato, para a descendência e, aqui, multiplicados. O "Carrega Benfica" transforma-se em "carrega o carrinho", "carrega os sacos do supermercado"," carrega a espreguiçadeira", "carrega a alcofa daqui para ali". "Não, afinal, não gosto aí, podes voltar a pôr no mesmo sítio, por favor?"

Para aumentar a agonia dos maridos, as mães retiram-lhes a identidade. Ou seja, perdem-lhes o nome. Os Antónios e Manéis passam, automaticamente, a "Papá isto, Papá aquilo, Papá, alcança-me aí esse pastel de massa tenra que amamentar dá-me uma fome danada". E é assim que nascem os pais. À força de tanta repetição do seu recém-estatuto.

Entretanto, como a mamã anda muito ocupada com o seu bebé, dorme pouco e está estafada, ficam uma série de coisas por fazer. Importantíssimas. É aqui que a mamã tem uma ideia brilhante: contratar um moço de recados. Um luxo? Não para quem tem um papá à mão.

"– Papá, quando vieres da farmácia passa, por favor, pela lavandaria a levantar a minha blusa, mas vai no meu carro que está mal estacionado e aproveita para pôr gasolina na bomba da rotunda, que é a que dá vales de desconto no supermercado para que possas trazer já as fraldas da bebé. Não vais demorar, pois não?"

E eis que surge outra aptidão profissional, a de moço de recados. Com a chegada do primeiro filho, anuncia-se a fase mais multitarefas da vida dos homens, em que a aquisição de novas competências é uma formação contínua, dia e noite. Uma alegria nunca vem só.

Finalmente, o pai moderno dá conta de todos os recados e o bebé dorme silenciosamente.

Então, apressa-se a soltar o marido que tem reprimido dentro de si e vai procurar a mulher à cozinha, à sala, ao quarto e não a encontra. Espreita na despensa pois ela pode estar a comer, coitadinha. Nada. A mulher evaporou-se. Está ele já de telefone na mão para lhe ligar, quando ouve passos no corredor. Surge uma mulher de carrapito no alto da cabeça. "Ah, és tu mãe? Por acaso, não viste por aí a Maria dos Prazeres?"

É que a única mulher em casa, é a mãe.

Até que um dia, a mulher acorda um bocadinho entediada, um bocadinho nostálgica, um bocadinho caprichosa. Porque uma mulher nunca acorda um bocadinho só uma coisa. E decide fazer um intervalo na brincadeira dos nenucos. Ilumina-se-lhe nova ideia na cabeça, solta o cabelo e… abracadabra, decide ressuscitar o marido. E um bom maribundo, que se preze, coloca-se imediatamente de pé. "Para onde é que é, querida?"

É quando o marido e a mulher decidem ir jantar fora e deixar a mãe e o pai em casa. No restaurante preferido do casal, blá, blá, o tempo está óptimo, blá, blá, devíamos ir de fim-de-semana para fora só os dois, blá, blá, lembra-me de ir ao mecânico tratar do airbag para poder levar a bebé à frente, blá, blá, sobremesa, não obrigado… Já estamos a demorar muito, blá, blá, traga-nos a conta, se faz favor, que maçada! Afinal, é antes quando o pai e a mãe foram jantar fora e deixaram o marido e a mulher em casa.

Também podíamos recomeçar todo o texto, substituindo o marido pela mulher. Mas chamar mulherbunda à mãe dos nossos filhos seria grosseiro.

 

Sofia Anjos, 38 anos, directora de contas numa agência de comunicação, foi mãe pela primeira vez em Maio.