Adrees Latif/Reuters

Há mães que pagariam para ir para a cama

O meu maior desejo é uma soneca. Ferrar o galho. Enterrar a cabeça na almofada e babá-la de tanto dormir. E, por fim, acordar com os olhos tão remelentos que não os consigo abrir e portanto tenho de voltar a dormir.

A expressão a noite é uma criança passou a ter um sentido literal. Tenho sono desde que a Laura nasceu. A privação de sono é a maior das violências maternais e estou sob tortura há cinco meses. Estou capaz de dar o dedo mindinho por uma noite inteira de sono. Mas como cortar o mindinho deve doer, ando a mentalizar-me para arranjar alternativas. Enquanto isso, salivo com a ideia do que seria dormir mais de três horas seguidas. Acredito que todas as mães, a determinado momento, pagariam para ir para a cama. 

Imagino que sou presa e tenho de passar a noite na cela a dormir. Ou que torço um pé e tenho de ir ao hospital, onde fico sob vigilância a dormir numa daquelas caminhas confortáveis, que reclinam e tudo. Ou ainda que me oferecem uma experiência numa clínica de sono, uma espécie de pacote oferta d' A noite é bela.

– Toma querida, comprei-te 20 horas de sono. 

A pediatra mencionou o Método Estivill como um método de acção eficaz para pôr a bebé a dormir. Ainda fiquei na esperança de que ela mo prescrevesse a mim, porque, se me pusessem na cama todos os dias à mesma hora, eu ficava lá caladinha, sem levantar ondas. Penso mesmo que não contava mais que meio carneirinho.

Uma coisa que as mães aprendem é a dormitar em pé. Isto depois de se levantarem para pôr a chucha, tapar o bebé, dar de mamar, limpar o pescoço bolsado, mudar a fralda, puxar o cordão da caixa de música, dar água e para mais qualquer coisa que entretanto esqueceram o que era. Porque ficam desmemoriadas. 

Como mãe acabadinha de se estrear, este ano vou perder 44 dias de sono. Cerca de 1000 horas. A acrescer a estas horas, um estudo britânico sobre hábitos de sono mencionava que uma pessoa casada acorda em média 109 vezes por ano por causa do ronco do parceiro. O meu marido ressona. Eu, confesso, ressono. Resumindo, cá em casa toda a gente ressona, acorda os outros e se autoacorda.O que vale é que existe todo um mundo à noite em que posso estar a maquilhar-me às três da manhã, tomar o pequeno-almoço às quatro e estender roupa meia hora depois. Como a televisão permite escolher a programação, posso fazer as lides da casa com um ouvido na Júlia Pinheiro – embora não o faça, pois é certinho que a voz da senhora vai irritar a bebé.

A verdade é que me sinto um golfinho, porque cada metade do meu cérebro dorme em tempos diferentes e também consigo fazer gracinhas se me pedirem. Mas, mesmo quando durmo, é a brincar. Deito-me, ajeito a almofada, fecho os olhos, vejo aquelas bolinhas todas coloridas… E buáaa! Ouço o choro antes de este chegar e pulo da cama como se tivesse uma mola. Espreguiçar-me é algo que nunca mais fiz, pelo que posso ter encolhido uns cinco centímetros de altura.

E, como já não basta dormir pouco, li que a privação do sono pode ainda aumentar o desejo por alimentos calóricos. Era só o que me faltava. Depois admiram-se que, após o nascimento de um filho, os casais se separem. Quem é que se quer deitar com um golfinho anafado e com olheiras? Quem é que dorme descansado ao lado de uma mulher que tem um olho aberto e outro fechado? Que marido está seguro numa casa em que a esposa sonolenta lava a banheira com óleo de amêndoas doces? Uma mãe gordinha ainda vá que não vá, burra talvez dê jeito, mas assassina já é passar os limites de um bom marido.

Esta privação de sono prolongada aumenta, entre outros, o risco de transtornos de ansiedade – Já lavaste o biberão? Então, lavaste o biberão? Já lavaste o biberão ou não?” –, o risco de agressividade – É que, se não lavaste, levas com o escovilhão! –, o risco de psicoses – Vou esganar o golfinho que está na cozinha a lavar o biberão” – e o risco de problemas sexuais – Epá, com um golfinho não consigo. Como não durmo, aumentei o risco de ficar aparvalhada. 

A verdade é que esta brincadeira não tem piada nenhuma. A falta de sono entristece-me. Porque dormir pouco faz-me sentir uma mãe incompleta que podia ter brincado mais cinco minutos com a filha, ter insistido naquela colher de papa final ou demorado mais tempo no jardim. Sinto-me ignorada pelo Morfeu num sono interrompido e sem amparo, mas contra o qual luto todas as manhãs para acordar e fazer levantar da cama a melhor mãe do mundo. Uma mãe fresca como uma alface e de sorriso largo, pronta para dar mais 24 horas de felicidade à filha, porque a maternidade é um dia de cada vez.

– Bom dia, meu amor!

 

Sofia Anjos, 38 anos, directora de contas numa agência de comunicação, foi mãe pela primeira vez em Maio.