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Avóssauros, uma espécie em extinção

A minha sogra fez uma tatuagem no braço com o nome da neta. Como não é muito dada à descrição, pediu para desenharem as letras bem grandes. Já a minha mãe chama Laura à cadela e Ginja à minha filha. E é com estas senhoras que a minha bebé vai crescer no próximo ano. Espero que não a devolvam com argola no nariz e a comer ração.
 
As avós agora vestem jeans apertados, fazem madeixas e usam unhas de gel. E vão pôr-se na fila do centro de saúde com ténis daqueles que dão bom andar. Enquanto aguardam a sua vez estão conectadas a outras avós através dos seus smartphones. Foi-se o tempo do telefone preto com contador de impulsos que tocava cinquenta vezes antes que as avós conseguissem atender as chamadas. É que as avós-que-parecem-avós são uma espécie em extinção. Daquelas que vêem nos rótulos de compotas. Das que têm cabelo branco com laivos lilases e fazem mise. Ou que fazem o doce d’avó verdadeiro e não o que os restaurantes prometem. Avó de quem, afinal?
 
Pois, essas senhoras acabaram-se. O mais parecido que encontrei foi num site na Internet que aluga umas senhoras que se mascaram como as avós-que-parecem-avós para fazer baby sitting. Para os pais irem jantar mais descansados por deixarem os seus mais-que-tudo a uma avó à séria e não à miúda que tecla o telemóvel com os dedos das mãos e dos pés e depois não sobra um mindinho para agarrar o puto que vai-mesmo-cair-já-caiu do sofá.
 
Talvez daqui a uns anos possamos visitar o museu de Antropologia para mostrar aos nossos netos como eram as avós de antigamente.
 
- Laurinha, olha ali uma avóssauro.
 
O estado civil também mudou. Uma avó sem avô era uma avó viúva. O que já não é dado adquirido pois o que mais há a bater perna são avós solteiras. E as crianças, além da família monoparental que lhes calhou, ainda levam com as mono-avós. Por outro lado, se há um avô e uma avó juntos, a vida do casal pode ficar comprometida com os netos. Porque os netos não ficam contentinhos só por separar os pais, também são capazes de acabar com a vida sexual dos avós. É aqui que entram em cena as avódrastas.
 
É fácil entrar na casa das avós: não exigem inscrição com dois anos de antecedência, não tem de se ficar em lista de espera, nem pagar horas extra caso se apanhe trânsito ao final do dia e se faça pontaria a todos os semáforos vermelhos.
 
Quis presentear as recém-avós da minha filha e fui espreitar a Loja do Avô para ver o que vendiam. Descobri uma cadeira giratória de banho, um ‘ajuda calça meias’, um alteador de sanita e, pelo meio, um corta-alhos. Se a Laura oferecer às avós um presente desta loja, tenho a certeza que se acabou o babysitting de borla. Sugeria à marca que mudasse o nome para Loja do Bisavô, que é para bater a bota com a perdigota.
 
Outra coisa que me aflige é a concorrência entre as avós. Há sempre uma avó que quer ser melhor que a outra avó e parte da culpa é das crianças que não sabem fechar a matraca e vão dizer à avó A que o bolo da avó B é melhor. Normalmente, a avó materna entra com dez pontos de avanço porque foi a sua filhinha que pariu a criança. Ou porque as mulheres fazem muita publicidade encapotada para puxar os maridos e filhos para o seu lado da família. Ou só porque esposa e sogra é o que se sabe.
 
Por detrás de uma mãe, há uma grande avó. No meu caso, há duas. Ambas com duas mãos às quais confio plenamente a minha filha até ao dia em que insistam em renovar a carta de condução. Sei que vão contar à minha filha histórias de encantar e explicar-lhe que hoje em dia não é o lobo mau que papa a avó.
 
 
Sofia Anjos, 38 anos, directora de contas numa agência de comunicação, foi mãe pela primeira vez em Maio.