Ásia
As chinesas mais ricas querem muito aprender as boas maneiras ocidentais
O Instituto Sarita abriu as portas em Março em Pequim. É um exemplo de escola de maneiras que desapareceu na Suíça e Estados Unidos e está a ressurgir na China.
Como decorar o interior de uma casa, descascar uma laranja como uma dama do mundo, saber pegar num talher de ostras ou animar uma conversa com colegas de trabalho do seu marido? As chinesas abastadas encontram agora resposta a todas estas questões frequentando em Pequim uma formação muito exclusiva. No Instituto Sarita, a sessão de doze dias de aprendizagem custa 100 mil yuans (12.500 euros). Uma soma que não dissuade as dezenas de “estudantes” que vêm de toda a China, explica a fundadora Sara Jane Ho.
“Os novos desejos e necessidades que a minha formação suscita nelas fazem-nas despender pelo menos três vezes esse orçamento. Damos um curso sobre peles e constatamos que, logo a seguir, as estudantes vão comprar casacos de peles. Damos um curso de joalharia e pouco depois as estudantes querem saber o preço das jóias.”
O Instituto Sarita abriu oficialmente as suas portas em Março. Entre os seus temas de ensino estão “dar assistência ao marido”, “vestir com elegância”, “perceber de vinhos”, “introdução aos desportos de ricos”, “serviço do chá da tarde à inglesa”, “arte floral e decoração de mesa”, ou ainda “como pronunciar correctamente as marcas de luxo”. Os cursos de culinária são assegurados por um chef que antes trabalhou na embaixada de França.
A escola refere-se ao modelo tradicional da “finishing school”, instituições para jovens de boas famílias que praticamente desapareceram na Suíça e nos Estados Unidos e que agora ressurgem na China.
Sara Jane Ho fala cinco línguas, licenciou-se na Universidade de Harvard e passou, ela mesma, pelo Instituto Villa Pierrefeu, frequentemente apresentado como a melhor escola suíça de boas maneiras. Omnipresente nos media locais, ela está prestes a impor-se na China como a grande conhecedora de um certo “saber viver” ao modo ocidental.
Mulheres ricas e activas
Quem são as estudantes que Sara Jane Ho faz questão de não identificar? Na sua maioria, são mães de família nos seus 40 e activas que ficaram ricas rapidamente graças ao forte crescimento económico da China desde o fim dos anos 1970. Vêm de metrópoles como Chongqing, Xangai e Cantão e são acolhidas num palácio durante o tempo da sua formação em Pequim.
Os seus pais viveram com as privações traumatizantes do maoismo e lutaram para sobreviver. Os seus filhos, pleo contrário, vivem uma vida privilegiada, virada para os valores ocidentais. E elas, no meio, vivem um choque cultural permanente, explica Sara Ho.
“As mulheres das famílias de novos ricos de hoje na China são as primeiras a garantir esses papéis de mães, filhas e mulheres de negócios num novo mundo transformado radicalmente. Para elas, não existe ninguém como elas que sirva de referência. Por isso, o que as minhas clientes querem é um guia, um novo Confúcio, e é o que nós lhes propomos.”
“A metade das minhas estudantes tem um passaporte estrangeiro. A outra metade tenta obter um passaporte estrangeiro. Elas pensam mesmo na perspectiva de viver no estrangeiro por razões de saúde, para educar os filhos num ambiente saudável”, acrescenta.
Muitas vezes, na origem da sua candidatura, houve um incidente onde foram apanhadas desprevenidas. “O maior problema que às vezes encontram é não saberem o que fazer perante um prato ocidental em ocasiões formais. Não ousam começar [a comer] por terem medo de cair no ridículo, por exemplo, com os caracóis”, explica à AFP Ren Weimin, o chef de cozinha do instituto.
“Quando recebem os convidados em casa, muitas vezes não sabem como dispor os pratos. É por isso que elas decidem estudar a cozinha e a etiqueta ocidentais. Assim, saberão comportar-se como convidadas mas também como anfitriãs.”
Educação mais especializada
Jocelyne Wang, 24 anos, diz que foi sobre maneiras à mesa que mais aprendeu no instituto. “A maneira como as pessoas comem diz muito sobre a sua educação e o seu carácter”, diz esta jovem solteira que frequenta um mestrado sobre mundialização em Londres. “Os meus pais aprenderam sozinhos, ou através da televisão ou da Internet. Mas eu queria algo mais especializado”, explica.
Os estrangeiros a viver na China ficam, por vezes, chocados perante a franqueza das perguntas que lhes fazem. (“Quanto ganha?”, “Por que se divorciou?”). Mesmo no plano físico, a noção de espaço privado é diferente. Esses temas são aprofundados no Instituto Sarita.
“Tento explicar-lhes que manter os cotovelos junto ao corpo permite não invadir o espaço pessoal do seu vizinho”, diz Sara Jane Ho.
Até há pouco tempo, estas donas de casa apenas tinham utilizado pauzinhos e não talheres. “O domínio dos talheres ocidentais é algo muito complexo." E conclui: "É como se transportássemos a pessoa para um bloco operatório exigindo que soubessem utilizar todos os instrumentos.”