Quando os sonos não são perfeitos, é preciso vigiar
Quando os sonos não são perfeitos, é preciso vigiar Reuters

Crianças

Choro e gritos? Acabe com as noites de pesadelos

O que fazer quando crianças até aos 12 anos sofrem de terrores nocturnos ou têm sonhos maus? Não entrar em pânico, registar a frequência dos episódios e crer que há uma forte probabilidade de estar tudo bem. Se não estiver, há soluções.

Terrores nocturnos e pesadelos não são a mesma coisa. Os primeiros acontecem na primeira fase do sono (primeiro terço da noite) e os segundos são mais frequentes na segunda metade da noite (quando há mais sono REM, o tipo de sono em que ocorrem os sonhos). As explicações são do pediatra Filipe Silva, especialista em perturbações do sono, do Hospital CUF Descobertas e membro da associação humanitária O Vigilante.

“Nos terrores nocturnos, a criança não parece bem acordada (não percebe, mostra-se confusa, não responde de forma adequada) e pode chorar durante bastante tempo porque não entende o que se passa”, explica o médico ao Life&Style. No caso dos pesadelos, “a criança acorda e chora por estar assustada”, mas acalma-se mais rapidamente, “pois está lúcida, percebe que era um sonho”.

Nem sempre é fácil distinguir as duas situações: “Quando esta distinção é importante, por serem episódios muito frequentes e exuberantes, e para orientar o tratamento, podem ser distinguidos com estudos do sono. Nestes estudos, o registo de eletroencefalograma associado ao vídeo permite identificar com certeza o tipo de fenómeno que está em causa.”

Ainda que se chamem “terrores nocturnos”, podem ocorrer durante o dia, mas são menos frequentes, pois “estão associados ao sono profundo”, que predomina no início da noite.

Ajustar horário
“Os terrores nocturnos e o sono agitado tendem a agravar-se com horários de sono irregulares e tempo de sono insuficiente”, alerta o especialista. Por isso, “muitas vezes, o simples facto de se ajustar um horário mais adequado para a criança diminui muito a frequência dos terrores nocturnos, não sendo necessário recorrer a outras medidas, nomeadamente a medicação”.

Há também um conjunto de boas práticas associadas à vida em família e em particular à hora de deitar que ajudam a prevenir esta ansiedade das crianças durante a noite. Filipe Silva, que assina o blogue Dormir e Crescer, recorda algumas: “Controlar a exposição a imagens e cenas assustadoras durante o dia. Esta exposição acontece mais frequentemente em programas de televisão ou em vídeos na Internet, que devem ser supervisionados.” Como nem todos os miúdos têm a mesma sensibilidade, é preciso ter a noção de que “algumas cenas inofensivas para uns são assustadoras para outros”.

A boa relação e comunicação entre adultos e crianças são igualmente fundamentais: “Conversar com as crianças para perceber a natureza dos medos e poder ‘desmontá-los’ de forma adequada ao seu nível cognitivo. Procurar guardar um tempo de qualidade de interacção com a criança no fim do dia, em dedicação exclusiva, com conversa e brincadeira. Este tempo dá segurança e facilita a separação da noite.”

E se é sabido que “as rotinas dão segurança”, a da hora de deitar torna-se ainda mais importante quando há indícios de perturbações do sono: “Deve ser uma sequência de acontecimentos agradável e previsível, com algumas etapas (e não apenas desligar a televisão). Avisar que está na hora de dormir, algum snack, lavar os dentes, ler uma história na cama, uma oração, despedidas.”

Cada família tem a sua rotina, mas o aconselhável é que a criança tenha uma hora regular de se ir deitar, “que garanta um tempo de sono adequado”, e “seja cada vez mais autónoma no adormecer, até adormecer sozinha na sua cama”.

Consulta do sono
Mesmo não havendo um estudo de referência universal, estima-se que os terrores nocturnos, que diminuem com a idade e podem ter origem genética, afectem “1% a 6% das crianças até aos 12 anos”.

Filipe Silva explica como se chega a esta informação: “A frequência dos terrores nocturnos é obtida com estudos que utilizam questionários para os pais ou cuidadores. Os resultados dependem do intervalo de idade estudado, da maneira como a pergunta é colocada e do tipo de resposta considerada (desde ‘alguma vez teve’ até ‘tem todas as semanas’).”

Alguns terrores nocturnos são breves e esporádicos, “mas podem ser mais prolongados e exuberantes, chegando mesmo a ser interpretados pelas famílias como fenómenos paranormais”. Nos casos em que a situação seja “muito perturbadora para a família ou se a criança parece cansada durante o dia, deve haver uma avaliação numa consulta do sono”, aconselha o médico.

“Se existirem pesadelos muito frequentes, principalmente se associados a medos diurnos e grande ansiedade de separação dos pais, deve haver uma avaliação por psicologia ou pedopsiquiatria”, conclui Filipe Silva.

Não havendo estas situações-limite, os mecanismos de regulação do sono da criança estão provavelmente a aprender a funcionar. Boa noite, então.