A Rainha Má, da versão Disney de A Branca de Neve e os Sete Anões, marcou a forma como se pensa nas madrastas
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Dia da Mãe

Mãe ou madrasta, só o amor lhes basta

Nos contos infantis, proíbem idas ao baile, oferecem maçãs envenenadas e espartilhos que sufocam. A sabedoria popular diz que às madrastas só o nome lhes basta. Contudo, quando o homem por quem se apaixonam traz filhos na bagagem, há mulheres que acabam por descobrir diferentes significados para a expressão.

Aos 27 anos Isabel tinha um emprego estável e casa própria, mas ainda não se sentia “uma adulta de verdade”. Não se identificava com os amigos que tinham filhos e ser mãe não fazia parte dos planos. “Conhecer o Ricardo acabou por ser o meu ritual de passagem para a vida adulta. Quando nos envolvemos ele trazia dois filhos de outra relação e foi pegar ou largar”, recorda Isabel. Ao namorar com um pai, Isabel, que não tencionava ser mãe, teve que se habituar à palavra madrasta. 

Para além dos desafios inerentes a qualquer relação, Isabel e Ricardo tinham na deles um obstáculo extra na forma de dois rapazes reguilas de 5 e 7 anos. “Com os rapazes houve duas provas de fogo cruciais, que me deixaram mais ansiosa do que qualquer outra coisa: o dia em os conheci e, mais tarde, a primeira vez que fiquei sozinha com eles, pouco depois de termos ido viver juntos”, conta Isabel.

Ricardo lembra-se bem desses momentos e garante que não foram menos stressantes para ele. “A Isabel tinha muito medo porque achava que era péssima com crianças. Eu tentava desdramatizar, mas, lá no fundo, estava pior… Como é que se apresenta uma namorada a dois miúdos? Andei dias a pensar se a apresentava como namorada ou amiga”. A decisão estava tomada e sete ou oito meses depois de terem começado a namorar, Ricardo levou os filhos ao jardim zoológico para lhes apresentar “uma amiga muito especial.” A tarde no zoo ia a meio quando Tomé, do alto dos seus sete anos, puxou a blusa de Isabel e lhe perguntou: “És tu que vais ser a minha mãe número dois?”. 

Com várias funções se escreve a palavra madrasta

A resposta de Isabel à pergunta de Tomé ajudou a definir desde o primeiro dia o seu papel naquela família. “Disse-lhe que mãe só há uma e que não se pode pôr números nas pessoas, mas que gostava de ser amiga dele e do irmão”, relembra Isabel, que actualmente já tem um filho com Ricardo. Esta abordagem vai ao encontro do que a especialista em estudos de madrastas, Donna Smith, considera ser a chave para uma relação de sucesso com os enteados: assumir o papel de uma tia ou de uma boa amiga.

“O ideal é dizer às mulheres que se tornam madrastas: ‘Não és a mãe dos teus enteados, tem calma e deixa que o pai te insira na família. Sê agradável, observa em silêncio e não interfiras nas interacções pai-filhos”, aconselha Donna Smith, professora na Universidade de Kentucky e co-autora do livro Stepfamilies: Issues in Research, Theory, and Practice.

Donna Smith despertou para o estudo do papel das madrastas há 32 anos, depois de ter casado com o pai de um adolescente de 15 anos. “Eu e o Jeff [o enteado] gostávamos um do outro, ele queria que o pai casasse comigo e eu tinha a certeza de que ia conseguir lidar com tudo, tendo em conta que dava aulas sobre educação familiar há cinco anos”, revela a académica americana. A teoria não poderia preparar Donna para o que a esperava e, três meses depois do casamento, viu-se obrigada a tirar da prateleira o livro How to Win as a Stepfamily, de John e Emily Visher, que lhe fora oferecido pelos colegas como prenda de casamento, que a ajudou a gerir a relação.

Fala com ela

Em todas as respostas que deu ao Life&Style, Donna Smith sublinhou que, em muitos casos de famílias recompostas, é essencial obter ajuda profissional ou, pelo menos, que as madrastas tenham um grupo de apoio, que as possa ajudar a lidar com as ambiguidades de ser madrasta. “Não esperem demasiado tempo. Estas famílias têm uma taxa de divórcio de cerca de 40%, frequentemente até ao terceiro ano!”, respondeu Donna Smith via email, numa frase em que os pontos de exclamação se multiplicaram. 

“Ainda acreditamos que vamos casar, ter os nossos filhos e ficar casadas o resto das nossas vidas. Contudo, as estatísticas já não remetem para esta ideia. Nos Estados Unidos a taxa de divórcio ronda os 45-50% e cerca de 70% dessas pessoas volta a casar, assim, é provável que muitos de nós venhamos a ser madrastas ou padrastos – cerca de um em cada três americanos pelo menos, serão”, acrescenta Donna Smith, de 63 anos.

Em Portugal, a par das taxas de divórcio, o número de famílias recompostas, com filhos de relações anteriores, também tem vindo a aumentar. Entre 2001 e 2011 subiu de 2,7% para 6,55%, sendo que a maioria dos casais nesta situação opta pela união de facto, um valor que corresponde a 59,18%. 

Filhos e enteados

Patrícia, nome fictício, poderia pertencer a essa maioria, não tivesse sido tão efémera a sua experiência como madrasta. “Em menos de um ano passei por situações com os filhos do meu companheiro que nunca tinham acontecido com a minha filha. Acho que tentei ser uma pessoa que não era, neste caso uma madrasta-mãe, e acabou por não correr bem”, conta a mulher de 41 anos. 

Quando se envolveu com um homem, pai de três filhos com idades entre os 12 e os 17 anos, Patrícia sentiu-se “a mulher mais sortuda do universo”. “Vi naquele homem uma porta aberta para realizar tudo o que sempre quis, era a promessa da família feliz que não consegui ter no meu casamento. Ele tinha os filhos dele, eu tinha a minha e, para mim, fazia sentido juntar tudo. Esse era o nosso plano. Falhou em parte porque eu não soube gerir a dor daquela família que queria a todo custo que fosse minha.” 

O homem por quem Patrícia se apaixonou perdera a mulher quatro anos antes, vítima de cancro. A família que Patrícia tanto desejava seria composta por ela, pela sua filha, por um viúvo e três órfãos. As primeiras tentativas de aproximação não foram bem recebidas. “Tinha muita pena dos filhos dele por não terem mãe e dei por mim a fazer e dizer coisas que só uma mãe faria. Eu achava que estava a ajudar, mas eles não estavam prontos, nem precisavam de uma estranha armada em madrasta boa.”

Para Donna Smith as famílias recompostas depois de uma morte apresentam particularidades que podem dificultar o papel dos “intrusos”. “Ao lembrarem-se da pessoa que perderam, adultos e crianças podem pensar nela de um modo idealístico, por vezes até irrealista. Nenhum padrasto ou madrasta está à altura dessa imagem.” Patrícia foi apanhada a meio de um processo de luto, o que acabou por acentuar as diferenças entre todos. “Vivíamos na mesma casa mas era como se fossemos equipas diferentes, eu e a minha filha e os outros. Foi muito desgastante para todos. Estava tudo bem com o meu companheiro mas eu sentia-me a bruxa”. 

A relação de Patrícia e do companheiro não resistiu a estas e a outras feridas e, cerca de um ano depois, separam-se com a certeza de que todos fizeram o melhor que podiam. Habituada a lidar com situações semelhantes, Donna Smith relembra que há algumas regras para que ninguém tenha que se tornar na madrasta má da Cinderela ou na bruxa da Branca de Neve: “Não esperes que a tua família recomposta funcione como a de um primeiro casamento. Não vai. Não esperes que uma madrasta assuma o lugar de uma mãe biológica. Não consegue.”