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Desemprego

Uma ecografia à frente e uma carta de despedimento atrás

Engravidou, contou aos chefes, foi despedida. Arranjou um novo emprego e o ciclo repetiu-se. Cármen Mateu foi despedida duas vezes, sempre a meio de uma gravidez. Face à hipótese de ficar com uma ecografia numa mão e uma carta de despedimento noutra, há quem pense duas vezes antes de ser mãe num país em crise onde os despedimentos de grávidas (e não só) têm vindo a aumentar.

Cármen Mateu trabalhava há alguns meses numa consultora internacional em Espanha quando teve o seu primeiro filho. “Foi então que comecei a ser vítima do chamado mobbing maternal. Fizeram-me a vida impossível: faziam-me viajar e passar várias noites fora de casa quando o meu contrato dizia que não tinha que o fazer”, conta a actual presidente do Instituto de Política Familiar (IPF) da Comunidade de Valência, uma entidade civil independente que actua a nível internacional na “promoção e defesa da instituição familiar”.

O mobbing de que Cármen foi vítima, uma espécie de bullying no local de trabalho, “foi duríssimo ainda mais para quem tinha um bebé em casa” e prolongou-se por seis meses. Entretanto, Cármen descobriu que estava novamente grávida e as reacções na empresa não tardaram a fazer-se sentir: “Só me disseram que era um despedimento sem justa causa, mas eu soube que me estavam a despedir por ter sido mãe”, relembra a espanhola de 38 anos, cujo segundo filho acabaria por nascer prematuro “de tão stressante que foi a situação”. 

Desempregada, Cármen dedicou-se aos dois filhos até ser recrutada por uma outra multinacional, concorrente da primeira. Negociou as condições de trabalho, mencionou que poderia vir a ter mais filhos e assinou o contrato satisfeita. Como num déjà vu, Cármen engravidou novamente. Duas semanas depois de ter informado os superiores de que estava à espera do terceiro filho, recebeu uma carta de despedimento “onde o motivo era exclusivamente estar grávida”. O ciclo repetiu-se e, para Cármen, gravidez foi pela terceira vez sinónimo de despedimento.

Ter ou não ter, eis a questão

Com 32 anos, Rita trabalha há três numa pequena empresa de contabilidade e auditoria e “até gostava de ter um ou dois filhos”, mas não quer “arriscar na roleta russa dos despedimentos de grávidas”. Rita, que prefere não revelar o seu apelido nem o nome da empresa onde trabalha, assume que coloca a vida profissional à frente da pessoal por falta de estabilidade financeira. “Se antes me perguntassem se abdicava de ter filhos com medo de ser despedida eu ria-me. Que sentido é que isso tinha? Se quisesse engravidar, fazia o que tinha a fazer e quando fosse preciso pedia licença [de maternidade]. É triste, mas agora já não tenho esse à vontade”, afirma.

O namorado, com quem Rita mora desde os 26 anos, “é quem mais atura estes dilemas”. Sempre concordaram que o casamento não era para eles, porém, o mesmo não acontece com a questão dos filhos. “Por ele era já hoje. Ele acha que nunca me despediriam por isso, mas a verdade é que nunca se sabe. O emprego já não é para a vida. Mesmo que não me despedissem por estar grávida, é sempre possível ficar sem trabalho e, se tivesse esse azar, com um filho em casa ou a caminho, acho que não nos aguentávamos financeiramente”.

Nenhuma das amigas de Rita foi despedida durante ou na sequência de uma gravidez, contudo, já ouviu falar de alguns casos e sente que esses despedimentos “são mesmo uma ameaça real”. Em 2012, a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE) deu 105 pareceres favoráveis ao despedimento de grávidas, mulheres que tinham sido mães recentemente ou de trabalhadores em licença parental. Em relação aos 29 pareceres favoráveis dados pela CITE em 2010, verifica-se um aumento de 3,6 vezes. Apesar de as estatísticas também incluírem pais em licença, as mulheres (grávidas ou lactantes) representam 91% dos despedimentos.

“Não me sinto ameaçada e acho era capaz de fazer o que faço hoje na empresa quase até ao final da gravidez”, admite Rita, que até já pensou em nomes para os filhos. Tiago, se for menino, Sofia, se for menina. O relógio biológico pode ter dado o sinal de partida, mas, na actual conjuntura económica, Rita prefere não se tornar “um peso para a empresa”, nem dar-lhe pretexto para um eventual despedimento. Pelo sim, pelo não, tem um plano B: “Se alguma vez acontecesse e eu suspeitasse que era por estar grávida, metia um processo em tribunal e ia até ao fim!”

À boleia da cegonha 

Do outro lado da fronteira, em Valência, Cármen Mateu não foi tão reaccionária perante o primeiro e o segundo despedimento - que acredita estarem relacionados com o facto de ter sido mãe. “Não fui a tribunal porque tinha dois bebés em casa e um terceiro a caminho. Toda a situação foi um acumular de tensões e eu já tinha tido um prematuro. Na altura, acreditas que acabou tudo e a única coisa que queres fazer é estar sossegada em casa, com a família”, afirma a presidente do Instituto de Política Familiar (IPF) da Comunidade de Valência.

No ano passado, Cármen participou, pela segunda vez, num fórum de Organizações Não Governamentais (ONG) em Nova Iorque, no qual contou a sua história e pediu, perante a Organização das Nações Unidas (ONU), que o mobbing maternal seja incluído como delito nos países membros. “Convidaram-me a dar um testemunho sobre ser despedida por ser mãe e aceitei porque acho que é importante que os organismos internacionais oiçam opiniões para além das suas. Acho que estão alheados da realidade”, afirma. 

Se a vida de Cármen fosse um jogo, na tabela de pontuações somavam-se agora duas intervenções perante a ONU, dois despedimentos, quatro filhos e cinco gravidezes. Aos poucos a balança vai-se equilibrando, Cármen está à espera do quinto filho e o risco de ser despedida nem entra na equação. Afinal, mais vale uma ecografia na mão, que duas cartas de despedimento passadas. 

Texto corrigido às 19h, de 15 de Abril, de forma a mudar "conjectura" para "conjuntura".