A exposição está na Avenida da Liberdade até Junho
A exposição está na Avenida da Liberdade até Junho DR

Fashion Clinic

Julião Sarmento desenhou t-shirts por uma causa

Há ideias que nascem antes do seu tempo e que aguardam até se materializar numa peça, que depois até pode ser um acto solidário. “Há muito tempo sonhava, mas não tenho uma explicação racional para isto, fazer uma t-shirt com um quadrado preto. Há anos.” Julião Sarmento, artista plástico, obras na colecção de museus como a Tate Modern, o Museum of Modern Art e o Guggenheim de Nova Iorque ou o Georges Pompidou (Paris), agora está na Fashion Clinic. Com t-shirts de edição limitada, fotografias de 39 mulheres e uma causa: doar as receitas ao Instituto Português de Oncologia (IPO).

Do sonho de Julião Sarmento até à quarta edição da Fashion Clinic art: when fashion meets art, foi uma conversa com uma das retratadas, Isabel Jorge de Carvalho, uns meses de desenvolvimento da ideia e uma semana de sessões fotográficas com actrizes, argumentistas, jornalistas, historiadoras ou a própria filha do artista.

Primeiro surgiu a ideia da t-shirt, já sabemos, sem simbolismos nem segundas leituras – “é um quadrado preto, não tem mais nada por trás” -, depois as mulheres que deveriam vestir a camisola. “Os retratos são de amigas minhas, quem melhor do que elas usar as coisas que faço? Tão simples como isso.”

E a causa: Julião Sarmento, um dos mais conceituados artistas plásticos portugueses, autor de instalações, pinturas e fotografia de mulheres, fez questão de que as receitas do seu envolvimento com a loja multimarcas de moda de alta gama fossem doadas. “Não vou utilizar o meu nome para publicitar a loja nem o que lá se vende, não faz sentido – tem que haver uma mais-valia social”, frisa, frente à instalação que abraça a entrada da loja da Avenida da Liberdade, em Lisboa.

Os retratos, 39, alinhados sobre e sob as caixas desenhadas por Ricardo Mealha para acondicionar as 300 t-shirts numeradas e assinadas por Julião Sarmento, mostram mulheres de várias idades com as t-shirts e pouco mais. Ana Isabel, modelo, ou Anabela Moreira, actriz, usam-na com sandálias. E nada extra. Maria João Bastos faz-se acompanhar da sua cadela Amélie, o único retrato "duplo". Mas a corrente mais forte é a pedida pelo artista: “uma posição neutra, com uma visão frontal”, explica, apontando para a imagem de uma Anabela Moreira tomada por um sentimento em crescendo, ou para a de Sofia Aparício, esfíngica. “Uma posição neutra, que fosse simétrica.”

A t-shirt é o que sobressai, uma das peças mais democráticas da história do vestuário e da moda, cinzenta, quadrado negro ao peito. Porque o autor “queria uma peça de roupa que fosse completamente unissexo e clássica, no sentido em que serve para tudo”, a “grande polivalência” de uma camisola de manga curta de algodão. Cada uma custa 118 euros, valor que reverte integralmente a favor do IPO. 

A intervenção de Julião Sarmento, imagens e t-shirts, estão desde hoje em exposição e à venda na Fashion Clinic até Junho de 2013.