Rico em vitaminas, proteínas e ácidos gordos

O leite de burra já não é um segredo de beleza

Cada vez mais estudos reconhecem as propriedades cosméticas do leite de burra e a indústria da beleza segue-lhes os passos na procura dos melhores ingredientes. Em Portugal, empresas como a Naturasin vivem da sua produção e até marcas de prestígio internacional como a Ach Brito tiram o melhor partido das suas propriedades. Afinal, o ritual de beleza de Cleópatra não é apenas um mito.

Desde Cleópatra, Rainha do antigo Egipto, a Pompeia, mulher do imperador Nero, até Pauline, irmã de Napoleão, que a história da utilização do leite de burra está envolta em promessas de beleza. A investigação científica tem vindo a verificar a verdade para além da  lenda. Nunca saberemos se estas mulheres realmente se banhavam em leite de burra ou que benefícios lhes trouxe, mas vários estudos apontam para os benefícios deste ingrediente. Rico em cálcio, ferro, sódio e zinco, o leite de burra é 60 vezes mais rico que o leite de vaca nas vitaminas A, C, D e E, das mais procuradas em produtos de beleza pelo seu potencial antioxidante. Estes componentes, quando combinados com as proteínas e ácidos gordos do leite de burra, estimulam a produção de colagénio, a substância responsável pela ligação intracelular da pele humana.

No estudo “Papel das proteínas na cosmética”, publicado na revista Clinics in Dermatology, em 2008, o autor, Gianfranco Secchi, atesta a capacidade das proteínas de interagir nos níveis de hidratação, firmeza, suavidade e elasticidade da pele. Já a vitamina A intervém na sua regeneração, enquanto as vitaminas F e Complexo B ajudam à renovação cutânea. Anti-rugas natural, as vitaminas C e E desempenham um importante papel antioxidante que retarda o processo de envelhecimento da pele, acelerando os mecanismos de cicatrização e estabilizando a estrutura celular. No seu conjunto, este cocktail vitamínico proporciona um efeito tensor e colabora na hidratação celular ao formar uma película elástica contínua na superfície da pele, provocando um alisamento cutâneo.

Em Portugal, a aplicação do leite de burra em produtos de dermocosmética encontra-se na forma de sabonetes, cremes de corpo e de rosto. Mónica Vieito, do departamento de comunicação da Ach Brito, empresa portuguesa de sabonetes de luxo, corrobora esta tendência. "É de facto um produto fantástico. Percebemos que havia uma lacuna no mercado e respondemos à procura", afirma Mónica Vieito. Em 2007, através de uma das suas marcas, a Confiança, a Ach Brito lançou uma colecção de quatro sabonetes  um deles com leite de burra, “devido às inúmeras propriedades que lhe são reconhecidas, que contribuem para o melhoramento do aspecto e toque da pele”. 

A Naturasin está neste momento em testes de eficácia de uma nova linha de produtos cosméticos. Esta empresa de produção e transformação de leite de burra sediada em Coruche, nasceu do potencial que os sócios Miguel e Filipe Carvalho viram neste “nicho de mercado para um produto nobre e raro”. O leite de burra estava “esquecido no tempo” e a aposta da Naturasin recaiu sobre a produção da matéria-prima, sob a forma de leite em pó, “a forma mais eficaz de incorporar leite de burra nos produtos cosméticos para que as suas qualidades se manifestem em pleno”, afirma Miguel Carvalho. 

Criada em 2008, a Naturasin tem uma produção pequena que, na sua maioria, está destinada a outros países. “Ainda que a nível nacional se sintam ainda muitas resistências por falta de conhecimento [sobre este produto], há já várias marcas que produzem sabonetes e cremes com o nosso leite em pó. A nível europeu, e mesmo mundial, verifica-se um maior reconhecimento das qualidades do leite de burra, o que se reflecte nas vendas”. Noventa e nove por cento do leite em pó da Naturasin é vendido a empresas asiáticas. Talvez "por uma questão cultural", como acredita Miguel Carvalho, o investimento em matérias-primas naturais para aplicação em cremes e sabonetes é melhor aceite nestes mercados. A Calitte, na Coreia do Sul, por exemplo, é uma das marcas que trabalha com o leite em pó da Naturasin. Em Portugal, a Ach Brito é a principal cliente da empresa. "A reacção [do mercado] tem sido fantástica desde o lançamento até aos dias de hoje", afirma a porta-voz da Ach Brito. Mónica Vieito adianta ainda que estes sabonetes "têm tido uma grande procura e o feedback dos consumidores é excelente". 

Mas por melhor que seja a receptividade dos consumidores, Miguel Carvalho não acredita que este seja um produto destinado às massas. “Pelo seu custo de produção e transformação, penso que se tornaria difícil apresentá-lo como um produto de grande consumo.” A confiança depositada na Naturasin por parte dos mercados estrangeiros advém da reputação que esta pequena empresa portuguesa já adquiriu relativamente a outros produtores europeus. Miguel Carvalho explica que “a maioria dos produtores de leite de burra são caracterizados como pequenas empresas familiares sem capacidade de transformar o leite em pó de uma forma eficaz, ou seja, de desidratar o leite sem perder as suas qualidades naturais". Um objectivo que a empresa assume desde o início do processo de fabrico. 

Para além do impulso ao desenvolvimento de novas economias, a questão é também social. Aliada à divulgação e valorização deste produto, há uma grande preocupação em aplicar princípios ecológicos, de desenvolvimento sustentável de economias locais e de preservação da espécie asinina mirandesa que actualmente está em risco de extinção.