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Estudo

Amigo não engata amigo

Os homens são de Marte e as mulheres são de Vénus. A expressão pode ser universal, mas no que toca à amizade entre homens e mulheres as teorias (e os livros, e os filmes) multiplicam-se. Poderão um homem e uma mulher ser “só” amigos? Um estudo da Universidade de Wisconsin vem agora confirmar que a amizade é possível, mas nem sempre desprovida de segundas intenções.

“Com base nos dados [recolhidos no estudo], na maioria das amizades com o sexo oposto existe pelo menos um nível baixo de atracção. E se vier mais de um lado do que do outro, é provavelmente por parte do homem”, declarou April Bleske-Rechek, responsável pela investigação, à agência de notícias canadiana Post Media News. O estudo, publicado na revista científica Journal of Social and Personal Relationships, foi feito em duas partes. Numa primeira análise recorreram a 88 pares de amigos que responderam anonimamente a um inquérito. Concluiu-se que os homens se dizem mais atraídos pelas amigas do que estas por eles. Quando lhes perguntam se acham que a outra parte os deseja, os homens inquiridos sobrevalorizam os níveis de atracção das amigas - e com elas aconteceu o contrário.

Ana Sousa Dias, jornalista e autora dos livros O que eu sei sobre os homens e O que eu sei sobre as mulheres (ed. Objectiva), defende que nestes estudos se corre o risco de generalizar, o que pode ser perigoso. “Como acontece com tudo, não há uma posição certa. Há muitos homens que têm amigas sem querer nada mais e vice-versa”. Ainda assim, a jornalista admite que “há quem ache que existe um limite e que a amizade pode sempre resvalar para uma relação mais sensual”. As conclusões do estudo levam a crer que o mais comum é serem os homens a sentir desejo pelas amigas. “Ao longo da História, eles enfrentavam o risco de ser excluídos geneticamente se não tirassem partido das várias oportunidades reprodutivas”, explica April Bleske-Rechnek. Para a psicóloga e investigadora da Universidade de Wisconsin, "o argumento final é que os homens evoluíram para ser muito mais oportunistas sexualmente do que as mulheres”.

De facto, para a sexóloga Vânia Beliz, o género pode ter um papel crucial quando a questão é a atracção entre amigos. “É uma questão biológica, mesmo numa amizade não deixa de ser um macho e uma fêmea. São duas pessoas que estão próximas e que têm uma cumplicidade que pode ou não evoluir”. Vânia Beliz considera que "os homens vêem as coisas de forma diferente e são mais espontâneos e físicos. Já as mulheres têm tendência a romantizar mais a relações, inclusive as amizades”.

A atracção não é fatal

Na segunda parte do estudo, foi pedido a jovens entre os 18 e os 23 anos e a adultos entre os 27 e os 52 anos que indicassem os prós e contras das amizades com o sexo oposto e que classificassem a satisfação que sentiam com os actuais parceiros românticos. O objectivo era perceber até que ponto a atracção pelos amigos interfere nas suas vidas.

Entre as pessoas mais velhas, o número de amigos do sexo oposto revelou-se mais baixo, em comparação com os jovens. Ainda assim, o balanço das amizades foi sempre positivo em todas as faixas etárias e ambos os géneros. Mas quando se tratava de encaixar a atracção na lista dos prós e contras, esta foi tida como prejudicial para mais de metade dos adultos. “As amizades podem ficar comprometidas ou não, conforme o tipo de amizades e as pessoas em causa”, afirma a sexóloga Vânia Beliz. “Para algumas pessoas a melhor maneira de ultrapassar a tensão sexual pode mesmo ser pô-la em prática. Enquanto para outras a solução pode ser afastarem-se ou deixar as coisas acalmar”.

Aos 27 anos, António Pinto estava feliz com a sua amizade de mais de uma década com Isabel, conforme conta ao Life&Style, até que algo mudou. “Ela estava sempre disponível para mim e apoiava-me muito. À medida que o meu namoro se deteriorava a nossa amizade parecia ter potencial para evoluir para outra coisa”, recorda o operador de telecomunicações. Isto levou-o a terminar o namoro e a revelar à melhor amiga Isabel que estava disposto a ir mais longe na relação com ela. “Disse-lhe que a desejava e ela teve um ataque de riso - pensou que era uma piada. Depois, quando percebeu que era sério, disse-me que eu era como um irmão e que devia estar confuso.” Durante algum tempo, António Pinto não tocou mais no assunto. “Continuámos a ser amigos e eu acabei por perceber que nunca seria capaz de me envolver com a Isabel. Sim, acho-a bonita mas adoro-a mas de outra maneira: ela é a minha melhor amiga”. A amizade falou mais alto e hoje os dois amigos recordam com muito sentido de humor o “episódio épico da declaração”.

Para April Bleske-Rechek, responsável pela investigação, é tudo uma questão de sermos capazes de ultrapassar a nossa história evolutiva: “é muito provável que o ambiente moderno tenha mudado tão rápido que agora tenhamos mais oportunidades de ter diferentes tipos de relacionamentos com o sexo oposto, que antigamente não tínhamos. Podemos demorar algum tempo a adaptarmo-nos a isso”.

Menos crente nesta possibilidade estaria Harry Burns, personagem interpretada por Billy Cristal no filme Um Amor Inevitável (When Harry Met Sally, 1989). O filme é um clássico sobre as peripécias que uma amizade com o sexo oposto pode implicar e ficou eternizado pela mítica cena em que Sally (interpretada por Meg Ryan) simula um orgasmo num restaurante cheio para provar como era fácil enganar os homens. Mas, se outra coisa ficou do filme de Rob Reiner, foi a opinião de Harry: “Homens e mulheres não podem ser amigos porque o sexo se intromete sempre”. Sally recusa-se a acreditar que todos os seus amigos homens podem estar interessados nela. Mas Harry estava mesmo interessado em Sally.