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As Cinquenta Sombras de Grey

Trabalha horas sem fim. Toma conta das crianças. Tem um salário mais alto. Gere a sua equipa. E no final do dia ainda quer ser chicoteada.

Quando Maggie Gyllenhaal protagonizou Secretary, uma comédia de 2002 que retrata um chefe que disciplina a sua assistente, preocupou-se com a reacção feminista à representação extravagante da dominação sexual. Mas, disse, “acho que as mulheres, sobretudo as da minha geração, o procuram de uma forma que extravasa discursos políticos”.

“As mulheres têm hoje mais poder e liberdade do que alguma vez tiveram. Mas isso não significa que tenham o suficiente de ambos, e que não experimentem complicados sentimentos de culpa, vergonha e se sintam indignas”, explica a feminista Katha Pollitt acerca da permanência das fantasias sexuais de submissão. Ao longo dos tempos, investigadores e psicólogos elaboraram teorias de que as mulheres fantasiam sobre submissão sexual porque se sentem culpadas ou pouco à vontade a assumir os seus próprios desejos; por outras palavras, é-lhes mais confortável saberem-se desejadas do que manifestarem desejo.

Estudos mais recentes revelam, contudo, que as mulheres que fantasiam sobre situações em que são forçadas a ter sexo são, afinal, menos permeáveis a sentimentos de culpa do que aquelas que o não fazem. De qualquer forma, essas teorias parecem simplistas e até demasiado próximas de um pensamento de século XIX para representarem a mulher moderna; não é tanto a culpa pelo sexo mas antes a sensação de ser dominada que se torna essencialmente mais libertadora. O excitante aqui é a irracionalidade, desligado de quem somos na vida real; imunes à crítica ou ao bom senso, à boa educação e a um bom emprego.

As feministas ficam perplexas com o nosso contínuo investimento nestas fantasias na esfera do romance, neste desejo residual de se ser controlada ou dominada. Têm vindo publicamente denunciar a quantidade de mulheres poderosas, bem sucedidas e independentes que se deixam enredar em fantasias (e realidade, claro, mas isso é outra história) de submissão. Estas mulheres “foram educadas a acreditar que sexo e dominação são sinónimos”, escreve Gloria Steinem, e que, de uma vez por todas, temos de “separar o que é sexo do que é agressão”. Mas talvez sexo e agressão não possam ou, melhor, não devam ser separados.

Várias têm sido as vozes feministas a aparecer em talk-shows televisivos denegrindo a retrógrada exploração soft-core das mulheres em As Cinquenta Sombras de Grey. Também não têm sido poucas as opinadoras de esquerda que perguntam: “Foi para isto que lutámos?” Mas é claro que estas lutas sempre foram irrelevantes para a vida íntima. Quando perguntaram à brilhante pensadora feminista Simone de Beauvoir se a sua subjugação a Jean-Paul Sartre na sua vida pessoal contrariava as teorias feministas que professava, respondeu: “Bem, estou-me nas tintas. Lamento desapontar todas as feministas, mas posso dizer que é pena que muitas delas vivam só da teoria em vez da vida real.”

Também Daphne Merkin, jornalista da New Yorker, na sua controversa e reveladora meditação sobre a sua própria obsessão com o espancamento, especulou sobre a tensão entre a sua identidade como “mulher poderosa” e os seus desejos por punições sexuais infantilizadas. “Igualdade entre homens e mulheres, ou tão-somente o seu pretexto, dá imenso trabalho e pode nem ser o caminho mais seguro para a excitação sexual.”