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As Cinquenta Sombras de Grey

Trabalha horas sem fim. Toma conta das crianças. Tem um salário mais alto. Gere a sua equipa. E no final do dia ainda quer ser chicoteada.

A conquista da liberdade e da independência parecem um fardo. O poder acaba por ser maçador e a mulher tende a evadir-se na esfera mais íntima “onde a realidade nem sempre coincide com o que dizemos”. Afinal, o que querem as mulheres?

E por que é que esta versão diluída do sadomasoquismo — quase o café com leite do sadomasoquismo — tem tanto cachet nos dias de hoje? Por que é que magotes de mulheres içaram o livro ao top de bestsellers do New York Times ainda antes de chegar às livrarias? O mais provável é que seja um casamento feliz entre a transgressão moderada e arquétipos confortáveis, entre virgens coradas e chicotadas.

Para alguns, imagino que se calhar até para uma maioria, terá o seu quê de glamour semipornográfico... entre o frisson do perigo e a segurança de um romance à antiga. Ler As Cinquenta Sombras de Grey não é mais arriscado, rebelde ou perturbador do que, digamos, comprar umas botas pretas ou um vestido com corte assimétrico no Barneys [um armazém nova-iorquino que vende artigos de luxo]. O estereótipo da leitora de As Cinquenta Sombras de Grey, destilado no condescendente termo “mommy porn”, aponta para uma mulher mais velha e suburbana. O que não correspondente totalmente à realidade: de acordo com informações da editora, que por sua vez se baseou em dados recolhidos junto de redes sociais como o Facebook, sites de fãs e o próprio Google, mais de metade das mulheres que lêem o livro estão na faixa dos 20, 30 anos e são muito mais urbanas do que a caricatura que delas se faz.

A definição actual para “dominação” não acaba numa consulta superficial no iPad. O desejo feminino da submissão sexual já foi tema na nova e muito falada série de Lena Dunham, Girls, sobre raparigas de 20 anos à toa e à solta em Nova Iorque. Em Girls, a pálida cópia de hipster que é o namorado da heroína brinca: “Do que tu gostas sei eu, minha mulher moderna”, e a sua ideia, ainda que expressa de uma forma estranha, é que elas gostam de ser dominadas. Ele diz coisas como “não serás escrava de ninguém...a não ser minha” e, se preciso for, atira-lhe da janela: “Se subires, vou manter-te aqui amarrada por três dias. Estou mesmo virado para aí.” Ela regressa do encontro com contusões e, envergonhada, vê-se obrigada a dar explicações ao colega gay da universidade com quem marcou encontro num bar: “Agora ando com este tipo e, às vezes, até deixo que ele me bata.”

Entretanto, a sua amiga mais íntima e com quem partilha casa tem um namorado doce, sensível, respeitador. Daqueles que, na cama, quer saber o que lhe dá prazer, coisa que a maça de morte e a deixa profundamente irritada. Ela, que trabalha numa galeria de arte, sonha em ver um daqueles artistas arrogantes a entrar-lhe porta dentro e a fazer-lhe promessas de como a deixará apavorada se a levar para a cama.

Portanto, estas raparigas ambiciosas, educadas nos ideais da esquerda artística, também não procuram os rapazes simpáticos da era pós-feminista; na sua ironia fina, ainda que algo confusa, elas estão no “mercado” à espera de alguma submissão... desde que criativa.

Outros sinais que mostram quão actual é este interesse no tema da dominação sexual inclui o recente filme A Dangerous Method, que cautelosamente introduz o espancamento numa parte que explora a história da psicanálise. Em entrevistas, a actriz Keira Knightley, protagonista do filme, confessou que teve de beber shots de vodka para conseguir filmar as cenas em que a sua personagem é espancada enquanto está amarrada à cabeceira da cama.