Reuters/Lucas Jackson

Online dating

Sénior procura companheira online para relacionamento offline

Os relacionamentos amorosos estão a mudar, especialmente quando se fala de pessoas com mais de 50 e 60 anos. Se antigamente era difícil uma pessoa desta idade voltar a namorar, as coisas estão agora muito mais fáceis graças à Internet e aos sites de encontros amorosos.

Com o aumento da esperança média de vida, os baby boomers - a geração que nasceu após a II Guerra Mundial, grosso modo entre os anos de 1946 e 1964 - já não querem ficar sozinhos, viúvos ou divorciados o resto da vida. Para que se entenda melhor quem é esta geração, eis dois baby boomers famosos: Bill Gates (1955) e Al Gore (1948).

Estas pessoas não podem propriamente ser catalogadas de seniores, mas é seguro afirmar que estão na meia-idade. E querem aproveitar da melhor forma a restante metade da vida. De acordo com um estudo recente da empresa Match.com - provavelmente o site de encontros online mais popular em todo o mundo, disponível em 24 países e mais de 15 línguas - a geração dos baby boomers é o segmento em maior expansão no universo do online dating, também ele em expansão embora esteja longe de ser uma tendência nova.

De acordo com um estudo americano recente (2012) - infelizmente há poucos dados específicos sobre a Europa e menos ainda sobre Portugal nesta matéria - nos últimos 15 anos a Internet tem vindo a substituir a família, os amigos e os colegas de trabalho no papel de “casamenteiros”. Não é de estranhar: segundo um estudo em que participou Eli J. Finkel, professor de psicologia social na Northwestern University, EUA, os sites de online dating [encontros online] trazem vantagens acrescidas quando comparadas com o offline dating.

Em esclarecimentos ao Life&Style, via email, Eli Finkel remete-nos para um estudo em que participou - Online Dating: A Critical Analysis From the Perspective of Psychological Science - e no qual é referido que duas dessas principais vantagens são as seguintes: o online dating oferece acesso sem precedentes a potenciais companheiros aos quais, de outra forma, não se teria acesso e permite aos interessados usar uma comunicação mediada por computador para averiguar uma eventual compatibilidade antes de embarcarem em encontros cara-a-cara, rejeitando os candidatos que, à partida, não darão bons parceiros.

Mas também há desvantagens: em primeiro lugar os relacionamentos online reduzem os potenciais parceiros a uma dimensão bidimensional, ao invés da dimensão tridimensional típica da interacção social cara-a-cara que ajuda a que tenhamos uma imagem global de alguém; em segundo lugar, uma vez que há tantos potenciais parceiros à disposição no cibermundo, isso pode fazer com que os utilizadores “objectifiquem” os seus interlocutores e evitem comprometer-se com apenas um.

Finalmente, longos períodos de comunicação mediada por computador poderão também ser prejudiciais. Quanto mais dois interlocutores “falam” virtualmente antes de se encontrarem pessoalmente, maiores são as possibilidades de as expectativas de ambos saírem defraudadas.

Namorar online depois dos 60

Verdinho62 - nome pelo qual prefere ser identificado - tem 63 anos e é frequentador assíduo de sites de encontros online em Portugal.

“A minha experiência já vem de 2004, comecei no site Clube Amizade - na época bem conceituado, hoje não tanto - (...) e depois fui visitando outros”, nomeadamente o WeGoOut e o Badoo.

Em termos genéricos não tem ficado muito contente com os encontros e com as experiências que tem tido online: “[Conheci] umas quantas senhoras com quem tive uns quantos momentos bons, mas o que se tira por vezes são desenganos. Nestes sites não existe sinceridade, 98% do que as pessoas dizem é mentira, além de omitirem muita coisa”, indica Verdinho62.

Quanto às diferenças - e consequentes vantagens e desvantagens - entre o namoro virtual e o namoro “real”, Verdinho62 explica que “a diferença é atroz”, sendo que é “mais positivo conhecer ao vivo e a cores”. Porém - realça - “[através da Internet] dá para conhecer muita gente, sabendo à partida que nos sujeitamos a receber de tudo... Mas depois dá para fazer uma triagem.”

Verdinho62 frisa igualmente que a sociedade “ainda não aceita bem estes relacionamentos” construídos a partir da Internet, embora realce que hoje em dia “as coisas já estão melhores”.

Sobre as motivações das pessoas com quem se tem cruzado nestes sites, Verdinho62 descreve que a maioria tem a mesma intenção: “Encontrar alguém para deixar de estar só”.

Esta motivação parece, aliás, ser universal. Em declarações recentes ao The Wall Street Journal, Eli J. Finkel descreve da seguinte forma o processo mental por detrás deste fenómeno: “A esperança média de vida aumentou e houve uma mudança do paradigma cultural em torno das pessoas que procuram um maior preenchimento mais tarde nas suas vidas. Vemos uma maior percentagem de pessoas a divorciarem-se depois de os filhos saírem de casa. E essas pessoas dizem: ‘Tenho 50 ou 60 anos e não quero viver o resto dos anos que ainda tenho pela frente num casamento que não me preenche’. Outros dão por si viúvos. Ou perante relações que terminam. Mas essas pessoas não estão condenadas a ficarem sozinhas; elas podem sair e namorar de várias formas, incluindo através da Internet”.

Fenómeno em expansão mas com limitações

Caso optem por fazer isso mesmo, hoje em dia as opções online são às dezenas, mais ou menos vocacionadas para este tipo de público sénior. Em Portugal há dezenas de sites de encontros online, mas de acordo com a nossa pesquisa nenhum deles está especialmente vocacionado para a geração baby boomer. É possível, porém, em todos eles, fazer uma selecção de parceiros por faixa etária. Eis dois exemplos de sites de encontros em Português, provavelmente os dois mais populares no panorama nacional: O Meetic e o Proximeety. Referência ainda, neste campo do online dating em Portugal, para os sites Badoo e WeGoOut.

O Life&Style tentou entrevistar os responsáveis dos sites Meetic e Proximeety mas tal revelou-se impossível até à hora de conclusão deste artigo.

Em alternativa, o Life&Style chegou à fala com os responsáveis do WeGoOut, que explicam que este serviço “integra o Facebook para sugerir os eventos, concertos, festas e bares mais populares, onde vão estar mais amigos e pessoas com interesses em comum”. Isto porque, o WeGoOut é hoje “um site que incentiva a relacionamentos no mundo real”.

“O WeGoOut acredita que as pessoas ainda preferem conhecer outras no mundo real e que a maioria das ofertas de sites de relacionamentos online se assemelham muito a agências de matrimónio. Tal provoca que os sites de relacionamentos sejam ainda mal vistos e exista um estigma em conhecer pessoas através de sites de relacionamentos ou a confessar que se utilizam os mesmos”, explica ao Life&Style André Moniz, do WeGoOut, que conta com 30 mil utilizadores registados, 26 mil dos quais em Portugal e 4000 no Brasil.

No que toca ao online dating nas camadas mais seniores da sociedade, André Moniz considera que este é um fenómeno em expansão - “pela nossa experiência a quota de utilizadores acima dos 60 anos tem vindo a crescer nas nossas comunidades” -, mas que ainda reflecte algumas limitações culturais.

“Julgo que os seniores podem ter no online dating uma boa forma de conhecer novas pessoas. [...] Contudo, a nosso ver, o problema é outro e mais complexo: não existem eventos, festas e locais para pessoas seniores irem sair e conhecer outras pessoas seniores. As pessoas mais velhas não têm ofertas de serviços no mundo real e provavelmente não são bem aceites as que existem. É uma questão cultural e existem aí algumas barreiras para ultrapassar”, explicou o mesmo responsável.

O Life&Style fez várias tentativas de contacto com Associação Portuguesa de Psicogerontologia e com a Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia a fim de podermos fazer um enquadramento psicossocial deste fenómeno. Em ambos os casos o Life&Style foi informado da impossibilidade de chegar à fala com responsáveis destes grupos por ser Agosto.

Se ainda não for utilizador destas redes sociais e estiver a considerar a hipótese de se inscrever, o melhor é ter em atenção alguns conselhos dados pelos próprios membros destas redes em variadíssimos fóruns online. Um deles é o seguinte: no primeiro encontro com alguém desconhecido (e mesmo nos subsequentes), marque um café num sítio público e com muita gente, como por exemplo um centro comercial. Depois de se encontrar com essa pessoa, não vá imediatamente para o carro ou para sua casa. Dê umas voltas pelo centro comercial e assegure-se que a pessoa que acabou de conhecer não o/a está a seguir.

Se quiser mesmo jogar pelo seguro, eis o que deverá fazer: levar consigo um amigo ou, pelo menos, contar sempre a alguém (um familiar, por exemplo) onde é que se vai encontrar com o novo contacto e onde.

Outro conselho importante: nunca forneça nos primeiros encontros dados como o seu endereço ou o seu número de telefone. Menos ainda empreste dinheiro à pessoa que acabou de conhecer. Em resumo: confie nos seus instintos e leve as coisas muito devagar. Se esperou até agora pode esperar mais umas semanas ou meses.