Ramsay na apresentação do seu novo programa, Hotel Hell
Ramsay na apresentação do seu novo programa, Hotel Hell Reuters/Eric Prouser

Novo livro editado em Portugal

Ramsay quer ser um bom rapaz

Depois de anos a insultar aspirantes a chefs na televisão, Gordon Ramsay está a tentar amaciar a sua imagem. Tem um novo programa, passado numa prisão, e em Portugal acaba de lançar um livro sobre alimentação saudável.

Gordon Ramsay tem uma questão por resolver com a sua imagem. Quando o vemos a espreitar com um ar inocente por detrás de umas folhas de couve na capa de Apetite Saudável, o livro de receitas que a Civilização acaba de lançar em Portugal, percebemos que está a tentar afastar-se - pelo menos alguns passos - da imagem do chef colérico aos gritos numa cozinha, humilhando aqueles que trabalham com ele. A imagem, afinal, que lhe deu a popularidade que tem hoje.

Mas mais ou menos pela altura em que estamos a enviar uma entrevista por email para Ramsay, o The Guardian publica um texto que não ajuda muito a imagem de rapaz saudável e (relativamente) bem-disposto, que o chef britânico parece estar a tentar construir. O artigo chama-se Gordon Ramsay: apetite pela destruição e descreve uma desastrosa entrevista que termina com a jornalista Decca Aitkenhead a ir-se embora a meio da conversa.

Aitkenhead conta que recebeu depois explicações dos assessores de Ramsay dizendo que tinha sido um dia particularmente difícil para ele porque na véspera lesionara-se num jogo de futebol para uma acção de beneficência, não dormira quase nada e tinha tomado vários comprimidos para as dores.

Mesmo assim, o texto reforça a imagem de um homem agressivo, que reage mal a perguntas sobre a sua vida pessoal apesar de ter publicado já uma autobiografia (Humble Pie, 2006) e de tornar públicas questões privadas como a recente ruptura com o sogro, e sócio, Chris Hutcheson - em vez de manter a história afastada dos media, Ramsay optou por publicar a carta com violentas acusações contra ele precisamente nas páginas de um jornal.

Fazer-lhe uma entrevista por email retira, temos de reconhecer, parte substancial da adrenalina de tentar perceber se conseguiríamos entrevistá-lo até ao fim - e sobreviver incólumes. De qualquer forma, as perguntas seguem e as respostas chegam pouco tempo depois. Na introdução do livro, Ramsay conta que desde há muitos anos que é "um apaixonado pela vida saudável", e que desde 2002 corre na Maratona de Londres (onde, aliás, foi o sogro quem o inscreveu pela primeira vez). Nas páginas seguintes, aparece com ar de desportista, às voltas com legumes e frutas. As receitas que apresenta vão desde hambúrgueres de frango com batata-doce a sopa fria de alho-francês e abacate, galinha-da-índia com fricassé de ervilhas e alface ou salmão glaceado com salada de espinafres e rabanetes.

São receitas fáceis e saudáveis, como Ramsay promete no início do livro (publicado em 2008; Ramsay já escreveu 21 desde 1996). Mas estará o implacável chef de programas como Com F Grande, ou A Cozinha É Um Inferno (Hell's Kitchen) a transformar-se gradualmente numa versão do bom-rapaz-estilo-Jamie-Oliver? Ehhh… não. Temos, aliás, a impressão de que ser remotamente parecido com Jamie Oliver será um pequeno pesadelo para Ramsay.

Desde que se tornou uma figura de televisão, optou deliberadamente por se manter distante da imagem do bonzinho, escrevemos-lhe. Isso tornou-se, a certa altura, uma limitação? As pessoas esperam sempre isso de si? "O stress e a pressão podem criar uma atmosfera explosiva numa cozinha", responde. "Mas, quando se trata de televisão, é importante não esquecermos que 15 minutos de imagens são geralmente editados a partir de horas e horas de filmagens."

Não será, no entanto, por acaso que o programa tem o deliberadamente equívoco título de Com F Grande. Numa entrevista ao The Observer em 2010, o jornalista perguntava-lhe directamente sobre o elevado número de palavrões utilizados. A resposta de Ramsay foi: "Fuck! Quando vemos os episódios de Pesadelos da Cozinha [Kitchen Nightmares, o programa em que tenta salvar restaurantes que estão à beira da falência] condensados num só - no ano passado quando houve aqueles 298 'fucks' - não fiquei orgulhoso com isso."

Insistimos no tema: tem tentado, nos últimos tempos, construir a imagem de uma pessoa mais calma e moderada? "Sou uma pessoa muito apaixonada e isso pode ser entendido de formas diferentes por diferentes pessoas. Acho que posso dizer, sem dúvida, que me tornei mais brando nos últimos anos, mas o que me faz correr continua a ser a necessidade de fazer mais e fazê-lo o melhor que consigo. E espero o mesmo dos outros."

Os gritos na cozinha, os insultos, a comida provada e atirada ao chão, as expulsões de aspirantes a cozinheiros lavados em lágrimas - tudo isto é o resultado de um desejo de perfeição, afirma o chef. O risco é que quando se fala de Ramsay se acabe sempre por falar muito mais do seu mau feitio e muito menos da sua comida (assumimos desde já que é isso que está a acontecer neste texto). Concorda? "Acho que a minha personalidade e a comida que cozinho estão muito ligadas - portanto, espero que as pessoas falem de ambas! Não diria que sou uma pessoa agressiva, mas sou um perfeccionista e quero que da minha cozinha só saia o melhor."

Com a popularidade, vem a atenção mediática e com esta vêm perguntas que às vezes não correm bem. Voltemos à entrevista ao Guardian. Conta a jornalista que acabara de lhe fazer uma pergunta aparentemente inofensiva: haverá alguém no mundo a quem não seja possível ensinar a cozinhar? Mas, continua Aitkenhead, Ramsay parece ter ouvido uma pergunta diferente. E a resposta foi (num tom que, lido, parece razoavelmente agressivo) um regresso à infância, aos tempos em que Ramsay comia os restos que a mãe levava para casa do restaurante onde trabalhava. "Não fui treinado para ter um palato", afirma.

E depois conta como em sua casa a mãe não perguntava "o que é que queres para o jantar?", mas punha-lhe à frente o que havia e nem se colocava a hipótese de ele deixar alguma coisa no prato. Este percurso de Ramsay é conhecido e, no perfil que traça dele na The New Yorker em 2007, Bill Buford (autor do livro A Ferver, publicado em Portugal pela Sextante) recorda também essa infância em Startford-Upon-Avon.

Apesar de esta ser uma localidade turística, escreve Buford, Ramsay cresceu "numa parte que os turistas não visitam", em habitações sociais cinzentas e deprimentes. "A comida era importante, não como cultura, mas de uma forma elementar." Era preciso comer alguma coisa, e como o pai, um músico que tocava nos pubs locais, nem sempre trazia dinheiro para casa, eram os restos do restaurante da mãe que garantiam que havia alguma coisa na mesa.

O irmão de Ramsay, Ronnie, tornou-se toxicodependente, mas Gordon, que na juventude jogava futebol semiprofissional, agarrou-se à comida, começou a trabalhar e foi subindo na escala profissional dos cozinheiros até ao dia em que - é assim que Buford conta a história - viu numa revista uma fotografia do chef Marco Pierre White e tudo mudou.

White é todo um estilo - mais chefe da máfia do que chef de cozinha, cabelo desgrenhado, barba por fazer, cigarro ao canto da boca, uma espécie de Anthony Bourdain nos tempos de Cozinha Confidencial, tudo nele a fazer pensar em sexo, drogas e rock'n'rol. E, apesar disso, duas estrelas Michelin aos 27 anos.

Ramsay ficou absolutamente fascinado e não descansou enquanto não chegou à cozinha de White. Aí terá vivido o pesadelo que tenta repetidamente reproduzir nos seus programas - gritos, pressão insuportável, horas de trabalho excessivas, sem tempo para dormir. Mas foi com White (e independentemente das divergências que depois os afastaram) que aprendeu tudo o que fez dele o chef que hoje acumula 11 estrelas Michelin nos 23 restaurantes que tem espalhados pelo mundo e que, segundo a revista Forbes, é o mais bem pago dos Estados Unidos.

Em 1996, Gordon casou-se com Tana Hutcheson (agora Ramsay) e nos anos seguintes tiveram quatro filhos. As dificuldades de Tana em engravidar levaram o casal a recorrer à fertilização in vitro para os primeiros filhos, Megan, de 14 anos, e os gémeos Jack e Holly, de 12. A mais pequena, Matilda, de dez anos, nasceu já de forma natural.

O problema, segundo muitos críticos, é que, entretanto, o império Ramsay cresceu de tal maneira (e com ele os problemas financeiros que estão, aliás, na origem da ruptura com o sogro) que hoje em dia Gordon já só cozinha nos seus programas de televisão e os restaurantes estão entregues aos seus subchefes.

Perguntamos-lhe, via email: é difícil controlar tantos restaurantes? Sonha com um sítio seu, mais pequeno, onde possa cozinhar para meia dúzia de clientes? Ou esse não é, decididamente, o seu estilo? "Gosto de desafios e gosto de me manter ocupado. Sou uma pessoa com muita paixão e muita energia e ainda há tanta coisa que quero fazer. Consigo isso [controlar os restaurantes] porque tenho uma grande equipa e estamos todos empenhados em recrutar e em ajudar a crescer a próxima geração de chefs talentosos."

E a comida no meio de tudo isto? Qual é a identidade de um prato feito por Gordon Ramsay? "O meu principal objectivo é usar ingredientes frescos, da estação, para criar pratos dos quais os meus clientes gostem e que lhes fiquem na memória até à visita seguinte. Gosto de pegar em pratos simples, receitas clássicas, e transformá-los em algo único, usando a minha imaginação e o meu estilo particular."

Bill Buford na New Yorker não poupa elogios à cozinha de Ramsay (embora, como parece inevitável, passe a maior parte do texto a falar do feitio dele). Coloca-o entre os chefs que em Inglaterra fizeram uma transição fundamental: "Dez anos antes, os principais chefs britânicos eram franceses. Cinco anos mais tarde eram britânicos, e Ramsay estava entre eles." Mas reconhece que, quando Ramsay não está nos restaurantes, a cozinha perde com isso e os clientes ficam desiludidos.

Jay Rayner, crítico gastronómico do Observer (citado noutro artigo sobre Ramsay com mais um título significativo, "I was a crazy psycho", e mais uma detalhada descrição dos seus problemas financeiros e escândalos pessoais, entre os quais acusações de infidelidade), diz também que o excesso de actividades exteriores não ajuda os restaurantes.

Mas Ramsay continua imparável. A sua mais recente aventura, um novo programa de televisão, chama-se Gordon Ramsay Behind Bars (Gordon Ramsay Atrás das Grades) e passa-se numa prisão de Brixton, onde ele ensina 12 detidos a cozinhar. O ambiente é mais uma vez de tensão - basta pensarmos em facas e outros objectos de cozinha à disposição de prisioneiros temperamentais - mas, apesar de todas as dificuldades, resultou na criação de uma marca, a Bad Boys Bakery, que já vende os seus bolos para a cadeia Caffè Nero.

O pretexto para a entrevista de Aitkenhead era a estreia deste programa no Channel Four britânico no final de Junho, mas, como essa conversa ficou a meio, voltamos ao tema nas perguntas que enviamos a Ramsay. "O programa destina-se a encorajar os detidos a aprender e a dar-lhes meios para aumentar as hipóteses de virem a ter um emprego quando saírem dali", explica. "Foi difícil em várias ocasiões, e pode ser assustador por vezes, mas é uma causa que vale a pena."

Na conversa com o Guardian, mostrava-se menos politicamente correcto, confessando ter ficado estupefacto com as boas condições na prisão e ter percebido porque é que muitos dos detidos não estavam interessados em participar no programa: "Porque é que haveriam de vir esfolar-se a trabalhar durante dez horas por dia quando é muito mais fácil para eles não fazerem nada?" Ninguém quer trabalhar no duro, lamenta, quando pode ver televisão durante todo o dia, jogar jogos ou ir ao ginásio, e quando se tem uma escolha entre cinco pratos diferentes por refeição.

Ramsay diz que gosta de pensar que, com o seu trabalho, convenceu mais alguns britânicos a cozinhar em casa e a deixar de comprar comida já cozinhada. "Acho que dantes as pessoas tinham mais relutância em experimentar coisas novas e combinações pouco usuais. A cozinha britânica era vista como aborrecida e sem graça, mas nos últimos anos começou a ganhar fama. Temos produtos fantásticos no Reino Unido e temos o direito de os exibir."

Mas será este Ramsay cordato e delicado que nos responde o verdadeiro Gordon Ramsay? Voltamos à questão da imagem. Há chefs como Jamie Oliver, com cara de menino, campanhas contra a obesidade infantil e filhos louros (os de Ramsay também são); e há chefs como Marco Pierre White, que cultivam uma imagem de estrelas de rock decadentes. Ramsay não encaixa totalmente nem numa nem na outra.

Simon Garfield, no Observer, cita uma sócia dele, Angela Hartnett, segundo a qual tem havido mudanças na sociedade e Ramsay tem tentado adaptar-se a elas. "As pessoas já não gostam tanto de agressões. Não querem vê-lo pôr outros a chorar", explica Angela. Garfield garante que "Ramsay já se perdoou a si próprio pelos excessos e extravagâncias". "Mas será que nós lhe perdoámos?", questiona.

Não é fácil para ninguém afastar-se da imagem que lhe deu fama e construir outra. Onde parar? Vamos vê-lo a tomar chá com avozinhas em acções de beneficência? Ou (o que já acontece) a jogar futebol por alguma boa causa? Vai deixar de dizer fuck you a cada dois minutos? Para já, nas montras das livrarias portuguesas aparece a espreitar por detrás de folhas de couve e a aconselharmo-nos a sermos saudáveis.

Mas não podemos esquecer que este é o homem que levou Bill Buford a começar o perfil de 2007 na New Yorker com esta frase reveladora: "Gordon Ramsay, o único chef em Londres que teve a honra de receber três estrelas do Guia Michelin, não é um monstro."

Artigo publicado na revista 2 de 29 de Julho