Miguel Araújo a interpretar o seu tema de sucesso
Miguel Araújo a interpretar o seu tema de sucesso

Canção de Miguel Araújo

Os maridos das outras são sempre melhores

“Toda a gente sabe que os homens são brutos”, diz a canção de Miguel Araújo. “Mas os maridos das outras não”, conclui, num tema que rapidamente chegou aos tops nacionais. Pretexto para escutar o autor e uma psicóloga sobre relações conjugais. Com música ao longe.

O autor de Os maridos das outras diz claramente: “A música não é sobre o meu casamento nem sobre mim.” Resposta via email quando se lhe pediu que escolhesse duas (ou mais) características que se lhe encaixassem de entre as da canção que o tornou conhecido do grande público. E Miguel Araújo sugeriu: “Teriam de perguntar à minha mulher.” Não o fizemos.

“Toda a gente sabe que os homens são brutos
Que deixam camas por fazer
E coisas por dizer.
São muito pouco astutos, muito pouco astutos.
Toda a gente sabe que os homens são brutos.

Toda a gente sabe que os homens são feios
Deixam conversas por acabar
E roupa por apanhar.
E vêm com rodeios, vêm com rodeios.
Toda a gente sabe que os homens são feios (…)”

À pergunta sobre se as relações humanas lhe interessam particularmente, o músico explicou: “Esta música tem a ver com a fase da vida em que me encontro, os trintas e poucos. De repente, os meus amigos são todos ‘jovens adultos’ e estas são as conversas que se têm à mesa. A mim interessa-me tudo o que caiba em três minutos e meio de canção. A mim interessa-me tudo aquilo que me interessa, passo a referência circular.”

Antes, afirmou que, “à partida, está tudo OK” com ele e com as mulheres. Nada há para mudar: “Está tudo correcto.”

“(…) Mas os maridos das outras não
Porque os maridos das outras são
O arquétipo da perfeição
O pináculo da criação.
Amáveis criaturas, de outra espécie qualquer
Que servem para fazer felizes as amigas da mulher.

E tudo o que os homens não...
Tudo o que os homens não...
Tudo o que os homens não...
Os maridos das outras são
Os maridos das outras são (…)”

Idealização do outro

Celina de Almeida, psicoterapeuta de casais, afirma que esta canção “diz mais sobre as relações do que sobre os homens ou as mulheres”. E alerta: “Quando os casais começam a centrar-se nestas questões logísticas do quotidiano — quem é que levanta a mesa, quem dá banho à criança, põe a roupa na máquina, etc. — e a desentender-se por esses motivos é um sintoma de que a relação já não está bem.” Fazendo com que “uma toalha deixada no chão tome uma proporção exagerada”. Quando a relação está bem, “é mais fácil gerir essas diferenças”. Por isso, estes conflitos podem ser vistos como “uma espécie de febre que antecipa uma doença, mostrando que é preciso ir ao médico”.

A psicóloga clínica dá-nos conta de que a partilha de tarefas continua a ser um dos problemas conjugais que ocupam bastante tempo nas primeiras sessões dos casais que procuram ajuda. “É a possibilidade de o casal ir discutindo e negando as origens mais profundas dos seus conflitos.” E, como na canção, “quando a relação vai mal, olhamos para as relações dos outros e parecem-nos muito melhores”.

Mas não se pense que é só o universo feminino que reclama das “camas por fazer e mesas por levantar”, também há lamentos masculinos dessa natureza no seu consultório. Embora em menor proporção.