Carla Rosado

Série "Vencedores do Ídolos" IV de IV

Sandra Pereira: “Ando a trabalhar para deixar de ser ‘a Sandra do Ídolos’”

A vencedora da quarta edição do Ídolos está desejosa de se ver livre desse título. Divide-se entre a preparação do primeiro álbum e concertos pelo país, mas ai de quem lhe peça para cantar as músicas do programa. Sandra Pereira quer afirmar a sua identidade e internacionalizar-se. Ideias para um nome artístico procuram-se.

Sandra Pereira teve que esperar um ano até conseguir participar no Ídolos. Depois de ter enviado um SMS para se inscrever na terceira edição (2009) e não ter obtido resposta, a cantora de Albergaria-a-Velha insistiu na edição seguinte e foi chamada a prestar provas. Ao casting de pré-selecção, seguiu-se o momento de enfrentar o júri composto por Manuel Moura dos Santos, Roberta Medina, Laurent Filipe e Pedro Boucherie Mendes. Habituada às lides de uma tuna feminina, Sandra Pereira cantou e tocou à guitarra Traz Outro Amigo Também. Se a voz os impressionou, a escolha do tema de Zeca Afonso levantou dúvidas por não se encaixar no conceito pop do programa. Pedro Boucherie Mendes classificou-a como “retro-hippie-chique-de esquerda” e perguntou-lhe como seria se fosse preciso vestir um vestido padrão leopardo e cantar Madonna. Sandra Pereira admitiu ter ficado entre “a espada e a parede”. O jurado não se deu por satisfeito: “Queres salvar as focas, os glaciares e os icebergs ou queres ser uma estrela pop e ganhar este concurso?”. Sandra Pereira respondeu que também queria salvar as focas, mas que estava ali para seguir em frente. E assim foi. Na passagem de ano de 2010 para 2011, sagrou-se vencedora da quarta edição do Ídolos.

Em retrospectiva, as provocações do júri no casting foram a primeira de muitas lições aprendidas no programa. “No Ídolos aprendi a calar-me. Às vezes apetecia-me dizer certas coisas, mas era preciso estar ali bem comportada e guardar o ‘monstrinho’ cá dentro”, afirma. Vendo com a devida atenção as imagens do primeiro encontro com o júri, descobrem-se os momentos de conflito entre a cantora e o “monstrinho” da impulsividade. É vê-la morder a língua, literalmente. “O Ídolos não é uma escola de música, é uma escola de controlar emoções, ímpetos e génio”, conclui.

Música, aprendeu realmente na capital inglesa, longe do formato televisivo, mas graças a ele – o curso foi o prémio por ter vencido o programa. Mudou-se para Londres e, durante seis meses, foi aluna da London Music School. “Lá não somos os vencedores de nada”, afirma a cantora. Na escola, foi bem recebida por professores e colegas que, ao ouvi-la cantar pela primeira vez, pediram bis. Por outro lado, a relação com a cidade foi-se deteriorando. “O clima e a agitação de Londres só foram bons no início. Depois, comecei a não gostar e tive momentos complicados em que estava sozinha e ficava muito em baixo”. Isto fez com que as viagens entre Portugal e Inglaterra se intensificassem, chegando mesmo a acontecer a cada duas semanas. Ainda assim, Sandra Pereira aconselha qualquer pessoa a visitar a capital inglesa porque “tudo o que se passa no mundo passa por lá”.

Identidade artística procura-se

A participação no Ídolos foi para Sandra Pereira um meio para atingir um fim: “Os meus planos continuam a ser os mesmos que antes do programa. Ainda sou ‘a Sandra do Ídolos’, mas quero deixar de ser e já ando a trabalhar para isso”. O seu grande objectivo é construir uma carreia sólida e livre de etiquetas relacionadas com concursos de televisão. “Por vezes, a ideia de estar ligada ao Ídolos incomoda-me. Quero que as pessoas se lembrem que participei num concurso da mesma maneira que recordam outras coisas que fiz. Mas já me disseram que agora não gostam de mim porque não canto o que cantava no concurso. Acho isso muito injusto”, afirma.

Ao longo das galas do Ídolos Sandra Pereira teve oportunidade de interpretar 16 temas, contudo, um deles acabou por transformar-se numa ‘maldição’. Quando interpretou o fado Ó Gente da Minha Terra, a cantora estava longe de imaginar que um ano e meio depois ainda lhe pedissem frequentemente para o cantar. “Eu ando a trabalhar para criar o meu estilo e não posso admitir que uma pessoa que vá ver um concerto meu saia 15 minutos depois só porque não cantei Ó gente…”, Sandra Pereira não chega a concluir a frase porque é interrompida pela música que sai do rádio e enche o restaurante onde se passa a entrevista. Ainda a cantora não tinha acabado de pronunciar o nome da canção, já se ouvia a voz de Mariza a entoar os primeiros versos: “É meu e vosso este fado…” A coincidência no timing resume aquilo que a vencedora do Ídolos sente: “Este fado persegue-me!” 

Sandra Pereira reconhece a importância do concurso e dos votos que lhe deram a vitória, mas também sente as consequências dessa atenção. “As pessoas estão-me a cobrar a vitória e dizem-me o que acham que tenho que fazer porque gastaram dinheiro a votar em mim. Se isso me ajudou a ganhar? Claro. Mas agora quero que me conheçam com uma identidade diferente sem me julgarem por isso”, afirma. Sandra Pereira identifica uma grande disparidade no público português: “depois do programa, as pessoas exigem que tenhamos um álbum cá fora, mas também nos exigem que continuemos a cantar músicas do Ídolos nos concertos. Não faz sentido”. Se os portugueses sentem que, por terem apostado nela, têm direito a ter uma palavra sobre o rumo que toma, Sandra Pereira quer dar-lhes algo de volta. ”Eu vou retribuir quando, um dia, conseguir quebrar as barreiras e internacionalizar-me. Esse é o meu grande sonho e a melhor prenda que podia dar ao meu país”.

A vontade de singrar na música é muita e Sandra Pereira reconhece que tem que fazer tudo para conquistar os mercados nacionais e estrangeiros. “Imagine-se alguém que, numa loja, pega num disco e na capa está escrito Sandra Pereira. É um nome feio, ninguém vai comprar aquilo. Ou então compra a achar que é pimba”, afirma entre risos. A solução? “Arranjar um nome artístico, afinal o Freddie Mercury também não se chamava assim”. A cantora ainda não sabe com que nome vai assinar, mas certo é que em nenhum autógrafo se vai ler: Um beijinho da Sandra do Ídolos.

O que é feito dos vencedores das anteriores edições do concurso Ídolos? Que rumo tomaram? Na série "Vencedores do Ídolos", o Life&Style reconstitui os passos de cada um dos quatro cantores desde que abandonaram o programa. Leia também os artigos sobre Nuno Norte, Sérgio Lucas e Filipe Pinto.