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Livro

Homossexualidade: Um manual para o amor no masculino

Podiam-se encher bibliotecas infinitas com livros inspirados pelo amor, mas Henrique Pereira fez o que ainda não havia sido feito em Portugal e escreveu um ensaio sobre relações amorosas entre homens. Se o título Amor que se faz homem dá algumas pistas sobre o assunto a tratar, o subtítulo Ensaio sobre as relações de amor e compromisso entre homens esclarece qualquer dúvida que possa ter ficado. Vai falar-se de homossexualidade, do ponto de vista dos afectos. O sexo é importante, mas fica para segundas núpcias.

Henrique Pereira dedicou os últimos 15 anos a estudar identidade sexual e psicologia Lésbicas Gays Bisexuais (LGB) o que lhe permitiu descobrir uma lacuna nas publicações nacionais: faltavam obras sobre amor entre homens. Psicólogo e professor universitário, viu na experiência profissional uma ajuda para tornar o livro o mais acessível e útil possível. “Não quis fazer um livro académico, esses vão para a estante e ninguém os lê. A minha intenção é chegar às pessoas, ajudar os homens a desenvolver mecanismo de expressão emocional que os ajudem a comunicar”, refere. O registo aproxima-se por vezes do da auto-ajuda, abordam-se os problemas comuns nas relações entre homens e são dadas dicas para os resolver. O autor chega mesmo a enumerar uma lista de 25 razões para que uma relação entre homens resulte, deixando uma linha em branco para que cada leitor a complete com o seu motivo.

Para o autor, uma obra deste género “era necessária especialmente tendo em conta as mudanças sociais e políticas a que temos vindo a assistir no nosso país, nomeadamente a legalização do casamento homossexual”. A 5 de Junho de 2010 entrou em vigor a lei que prevê o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Nesse ano celebrou-se, em média, mais de um casamento gay por dia (266 em 208 dias), contudo, em 2011, verificou-se uma ligeira quebra para os 0,8 casamentos por dia (324 casamentos em 365 dias). “A legalização foi muito importante do ponto de vista legal e dos direitos humanos. Existe o direito de optar e esse reconhecimento traz muitos benefícios práticos, como as visitas quando se está doente ou as questões de bens”, afirma o investigador. Ainda assim, acredita que esta medida é “especialmente importante para os jovens que estão a questionar a sua sexualidade, para que não se sintam cidadãos de segunda e entendam que têm os mesmos direitos [que qualquer pessoa]”.

Fora deste cenário fica a adopção de crianças por parte de casais homossexuais. Henrique Pereira chama a atenção para o facto de em diversos países ocidentais acontecer o contrário do que se passa em Portugal: é permitida a adopção mas não o casamento. “A questão da adopção é um dos exemplos mais flagrantes sobre a dimensão da discriminação em Portugal, uma vez que não existe nenhuma razão para pensar que as famílias homoparentais são menos competentes”. O psicólogo continua: “O bicho papão que está aqui presente é a ideia de que as crianças adoptadas por um casal homossexual também o serão”. Henrique Pereira não podia discordar mais dessa ideia e alega que diversos estudos comprovam que não há diferenças no crescimento das crianças. A perseguição de que podem ser vítimas as crianças é uma falsa questão: “discriminadas na escola todas são, por serem gordas, magras, baixas, altas ou usarem óculos”.

Perante a evidência das mudanças políticas dos últimos anos, o autor de Amor que se faz Homem deixa a ressalva de que estas nem sempre são acompanhadas por mudanças de mentalidade, sobretudo devido à falta de informação e de modelos positivos: “Ainda se continuam a propagar os modelos negativos, do homem que quer ser mulher, com saltos altos, plumas e lantejoulas, que é promíscuo e tem Sida. Isto é aquilo com que a maioria das pessoas não se identifica”. A perpetuação deste tipo de estereótipos vai acabar por dissimular o que Henrique Pereira descreve como o “mundo real da homossexualidade”. Numa sociedade onde predominam os valores heterossexuais, é comum que, nalgum momento das suas vidas, os homossexuais cheguem a questionar a sua própria identidade e a possibilidade de serem felizes. De acordo com Henrique Pereira, o livro pretende “minimizar essa grande incongruência”.