Enric Vives-Rubio

Série "Vencedores do Ídolos" III de IV

Filipe Pinto: “Receava o que podia acontecer se me dedicasse só à música”

Depois de vencer a terceira edição do Ídolos, Filipe Pinto precisou de deixar a poeira assentar. Feito o curso na escola de música em Londres, regressou a Portugal com alguns temas compostos e prepara-se para lançar o primeiro álbum. Ideias não lhe faltam: abriu uma empresa que junta música e natureza e até tem planos para criar cogumelos e caracóis.

A aventura de Filipe Pinto no Ídolos começou em 2009. Então, era estudante de Engenharia Florestal e, apesar de a música fazer parte da sua vida, não a incluía no seu futuro: “Antes tinha medo de arriscar, receava o que viria a acontecer se me dedicasse só à música”, revela. A primeira vez que apareceu na televisão, ouvimo-lo dizer que queria apenas ouvir a opinião dos jurados e que não pretendia continuar no programa depois disso. No casting cantou Pearl Jam e Rui Veloso, o júri gostou e encostou-o à parede: “Queres seguir em frente ou não?”, ultimou Manuel Moura dos Santos. A indecisão de Filipe Pinto desapareceu e ele não só seguiu em frente como venceu a terceira edição do concurso.

Aos poucos a “nuvem” que Manuel Moura dos Santos o acusou de ter sobre a cabeça foi desaparecendo e, gala após gala, Filipe Pinto ganhou a confiança de que precisava. “Comecei a ver a receptividade das pessoas e foi muito importante porque criou um certo entusiasmo em mim”, revela. Hoje, sente que está em dívida para com os que acreditaram nele e que tem “o dever de dar sentido ao que foi feito no Ídolos”. Para isso, tirou o máximo proveito do prémio do programa. Pela primeira vez na história do Ídolos, o vencedor recebia um curso de seis meses na London Music School. Filipe Pinto aplicou-se e foi considerado o melhor aluno da turma, na vertente de voz.

Na escola, Filipe Pinto encontrou alguns portugueses e pessoas com backgrounds musicais muito diferentes. “Eu fui para a turma dos que menos sabiam mas não fiquei nada incomodado com isso. Aprendi imenso”, recorda. Terminado o curso, sentiu que a cidade tinha mais para lhe dar. “Seis meses é muito pouco tempo. Senti que devia ir para outra escola para ter uma base de comparação”, afirma. Já por sua conta, escolheu a Morley College, onde passou mais três meses a consolidar conhecimentos.

O balanço do tempo que passou no Reino Unido é positivo, mas Filipe Pinto não tem dúvidas de que é em Portugal que quer estar. O sentimento é revelado no sorriso que acompanha cada referência ao sol, à comida e aos amigos portugueses. Voltar era um desejo pessoal, mas também uma decisão profissional sensata para quem quer cantar em português. “O facto de já ter alguns temas mais ou menos concluídos foi uma das razões que me fez regressar. Queria fazer a produção do meu disco de originais com pessoas com quem me identificasse”.

Quando o Ídolos terminou, Filipe Pinto recebeu propostas para gravar um álbum, mas sentiu a necessidade de se afastar: “tinha muito stress acumulado e não queria assinar nenhum contrato enquanto a poeira não estivesse bem assente”. Entretanto passaram dois anos e altura certa parece ter chegado. O EP foi lançado em Maio, o single Insónia já se faz ouvir nas rádios e tem chegado a alguns tops. No final do Verão chega o disco, com músicas exclusivamente em português, cantadas com aquela que Filipe Pinto considera ser a sua verdadeira voz. “No Ídolos as minhas influências surgiam muito à flor da pele e, por vezes, tentava adaptar a voz a um registo que não era bem o meu. O disco é o outro lado de Filipe Pinto”, refere o próprio. Um projecto que, ao contrário do que tinha acontecido com os vencedores anteriores, não teve participação, financiamento ou influência de nenhum elemento ligado ao programa.

Música e cogumelos

Os grandes acontecimentos da vida de Filipe Pinto não foram planeados. Um amigo inscreveu-o no Ídolos e aterrou no primeiro casting quase de pára-quedas. A entrada no curso de Engenharia Florestal também não era um sonho antigo - foi a sua quinta opção quando se candidatou ao ensino superior. “O que eu queria mesmo era seguir a área de audiovisual, para estar de certo modo ligado à música”, afirma. Ainda assim, bastaram alguns meses na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro para se render à Engenharia Florestal. “Gostava de insectos, de ninhos, de ouvir os pássaros, mas era tudo muito abstracto. O curso deu-me conhecimentos para entender a ciência por detrás de tudo isso”.

No caso de Filipe Pinto, o Ídolos está para a música, como o curso de Engenharia Florestal está para a natureza, ambos foram uma forma de concretizar uma paixão que ele não sabia como agarrar. “Este ano abri uma empresa relacionada com a música e o ambiente. Chama-se Filipe Pinto - Raízes do Som e pretende conciliar esses dois mundos que me apaixonam”. A ideia é simples: assistir a um concerto de Filipe Pinto e, no final, partir à descoberta do meio natural envolvente. As actividades ao ar livre podem incluir percursos pedestres, reconhecimento de cogumelos e aulas de apicultura. As possibilidades não se esgotam aqui, o que Filipe Pinto pretende “é sensibilizar para o ambiente por intermédio da música”, tarefa que também pode passar por parcerias com empresas para desenvolver acções de solidariedade social ou projectos com crianças. “A música é um canal através do qual eu sinto que posso e devo transmitir aquilo em que acredito e com que me preocupo”, afirma.

O rapaz que gostava de falar mas ficava corado nas apresentações da escola fez da experiência no Ídolos uma aprendizagem sobre como lidar com o público. Procura ter um contacto próximo com os fãs e espera aprender também com eles num fluxo com dois sentidos. Essa abertura à troca de experiência está bem clara no seu site, onde existe uma secção específica para o debate e divulgação de actividades a que chamou de “Pequenos Mestres”. Se à partida a designação parece remeter apenas para os fãs, Filipe Pinto apressa-se a generalizá-la: “todos somos pequenos mestres, eu sou, tu és, eles são”. Para o músico, “somos mestres porque todo o trabalho que fazemos tem valor e é algo de bom para alguém. Pequenos porque isso nem sempre é reconhecido”. Esta humildade acompanhou-o desde o início da participação no Ídolos e mantém-se até hoje. Quando se lhe pergunta por projectos futuros, refere a vontade de criar cogumelos e caracóis. A ambição dele não se expressa em números.

O que é feito dos vencedores das anteriores edições do concurso Ídolos? Que rumo tomaram? Na série "Vencedores do Ídolos", o Life&Style reconstitui os passos de cada um dos quatro cantores desde que abandonaram o programa. No próximo artigo, falamos com Sandra Pereira, a vencedora da quarta edição do concurso. Leia também os artigos sobre Nuno Norte e Sérgio Lucas.