• Gabriela estreou no Brasil em 1975
    Gabriela estreou no Brasil em 1975
  • Sónia Braga no papel de Gabriela (1975)
    Sónia Braga no papel de Gabriela (1975)
  • Os actores Sónia Braga e Armando Bogus (Nacib) no original de 1975
    Os actores Sónia Braga e Armando Bogus (Nacib) no original de 1975
  • Gabriela (Juliana Paes) e Nacib (Humberto Martins) no remake de 2012
    Gabriela (Juliana Paes) e Nacib (Humberto Martins) no remake de 2012
  • Ivete Sangalo no papel de Maria Machadão (2012)
    Ivete Sangalo no papel de Maria Machadão (2012)
  • Sinhazinha (Maitê Proença) e Dorotéia (Laura Cardoso)
    Sinhazinha (Maitê Proença) e Dorotéia (Laura Cardoso)
  • Gabriela na fonte de Ilhéus (2012)
    Gabriela na fonte de Ilhéus (2012)
  • A população de Ilhéus (2012)
    A população de Ilhéus (2012)

Remake da novela

A Gabriela já não é bem assim

No ano em que se comemora o centenário de Jorge Amado, Gabriela volta à televisão brasileira pelas mãos da Globo. A nova versão é protagonizada por Juliana Paes, mas mantém-se o cheiro de cravo, a cor de canela e a icónica música de abertura. “Eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim. Vou ser sempre assim, Gabriela”.

Num romance de Jorge Amado há riqueza para um sem-fim de adaptações, Gabriela, Cravo e Canela (1958) não é excepção. A TV Globo dos anos 1970 investiu no potencial da obra e o resultado foi uma novela que deixou marcas nos dois lados do Atlântico. As histórias passadas numa pequena cidade do interior brasileiro, chamada Ilhéus, chegaram a Portugal em 1977 e instauraram-se na rotina de um país onde a maioria das pessoas só conhecia uma maneira de falar português.

José Nuno Martins, realizador e produtor de rádio e televisão, recorda como a novela infligiu em Portugal um “prodigioso arranque na sociedade”. O produtor destaca que Gabriela, para além de ter revelado aos portugueses a mestria de Jorge Amado, “teve influências até na maneira de falar: a língua adquiriu um movimento que não tinha em Portugal, ganhou nova vida, expressões e vocabulário”. José Nuno Martins vai mais longe e defende que a divulgação de Gabriela e das novelas brasileiras posteriores “abriram caminho até ao acordo ortográfico, na medida em que contribuíram para credibilizar as formas plásticas da língua.”

Entre Maio e Novembro de 1977, grande parte dos portugueses jantou na companhia de Gabriela, emitida na RTP, cinco vezes por semana. A novela foi uma inovação no horário nobre, mas não foi a única novidade: no mesmo ano chegou a Portugal a Coca-Cola. Como recorda José Nuno Martins, os espectáculos de promoção dessa bebida, até então proibida, “trouxeram a Lisboa dois actores de Gabriela que deixaram os portugueses em euforia”. A visita de “Tonico Bastos” (a personagem de Fulvio Stefanini) e “Malvina” (interpretada por Elizabeth Savalla) marcou o início da aproximação do público português ao starsystem da TV Globo. “Desengane-se quem pensa que tudo começou com as participações nos carnavais da Mealhada”, explica José Nuno Martins.

A “Gabrielomania” espalhou-se pelo país e poucos escaparam. A Assembleia da República encerrou mais cedo para que os deputados pudessem acompanhar os últimos capítulos. Álvaro Cunhal atrasou-se para um programa de televisão por ter ficado a assistir a um episódio. O então primeiro-ministro, Mário Soares, confessou ao Sunday Times que gostava de ver Gabriela. E o fenómeno do Brasil tornou-se notícia em Portugal.

Como destaca Francisco Nicholson, autor de Vila Faia, a primeira novela portuguesa, “a conjuntura social e política que coincidiu com a estreia de Gabriela foi crucial”. Segundo o autor, foi o contexto, mais do que a obra de Jorge Amado, o responsável pelas mudanças de fundo na mentalidade portuguesa. “As transformações que se verificaram na sociedade portuguesa devem-se à Revolução de Abril. O fenómeno Gabriela teve alguns reflexos mas não acredito que uma obra de qualquer género possa mudar o mundo”. De facto, o Portugal que Gabriela veio encontrar em 1977 atravessava um período propício à recepção de tudo o que fosse novidade, onde o recente fim da ditadura exigia mudanças generalizadas.