Philippe Wojazer/Reuters

Dia da Mãe

Ser mãe não é obrigatório

Nunca tiveram vontade de ter filhos, não sentem vocação para ser mães e desconhecem os efeitos do "relógio biológico". Algumas mulheres já o dizem sem medo de julgamentos, mas ainda são olhadas com estranheza. Hoje não é o dia delas.

Egoístas, ambiciosas, estranhas, são algumas das acusações de que são alvo as mulheres que escolhem não ter filhos. “Egoísta é quem quer um filho e depois não tem tempo para ele”, diz Fátima Lopes, criadora de moda, que, à espera de ter tempo, deixou o tempo passar. “Eu precisava de ter tempo para ser mãe. Não é justo ter uma criança e depois entregá-la a uma ama”, defende. E acrescenta: “Nunca houve uma decisão de que nunca iria ser mãe, mas, em simultâneo, também nunca foi uma obrigação.” Agora “é que já não faz sentido”, diz, aos 47 anos.

Segundo Júlio Machado Vaz, psiquiatra, “até há pouco tempo, falar em ‘maternidade’ era o mesmo que falar em ‘feminilidade’, a mulher encarava-a como um imperativo biológico, um instinto — logo, como algo que acontece não por factores culturais”.

E hoje? “Já não se sentem destinadas a ter filhos e não se importam com o que dizem os outros. Muitas retardam a gravidez por questões de ascensão profissional. Sem culpa. E ainda bem. Há 30 anos, ninguém me dizia olhos nos olhos que não queria ser mãe. Agora, felizmente, já não temem ser julgadas”, prossegue o especialista em Sexologia.

Ana Correia, de 37 anos, confirma isso mesmo: “Não sinto essa necessidade, não sinto a falta de ter filhos, o tal ‘relógio biológico’ não parece fazer parte de mim. Nunca tive grande à-vontade com crianças e, apesar de achar piada aos bebés de amigas, é porque não são meus, não são minha preocupação.”

Também Ana Gonçalves, de 43 anos, diz não ser obrigatório ser mãe. “Ninguém tem forçosamente de ser mãe ou pai. Se sentimos que é isso que queremos, devemos fazer essa opção, livremente, e ter, mas para poder amar, cuidar, educar, formar, ou seja, ter com amor, mas também responsabilidade. Não ter filhos para depois entregá-los a alguém que faça tudo isso ou parte.”

Estará o conceito de “instinto maternal” a priori definitivamente morto? “O instinto maternal foi demolido há muito por Elizabeth Badinter. E mesmo o imperativo doutrinário da Igreja católica que obriga à procriação enfraqueceu. Há muitas católicas que aceitam a maternidade responsável e tomam a pílula alegremente”, diz o psiquiatra.

Para o médico, não há qualquer mal nas mulheres que não se sentem vocacionadas para ser mães. “Estão no seu direito, embora haja relações que terminam por isso.” Porque muitos homens “querem muito ter filhos”. Confissão de Júlio Machado Vaz: “Eu sempre quis.” E teve. “Também há mulheres que acabam por ter filhos porque pensam que, por aquele homem, vale a pena”, continua, mas lembra: “Pode correr bem ou não, também depende da partilha das tarefas entre o casal.”

Para Maria Calado, 45 anos, a questão da partilha não foi decisiva, mas também não foi negligenciável. “É sabido que a responsabilidade e o trabalho recaem principalmente sobre nós, as mulheres. Mais ainda nos primeiros tempos. Isso pôs-me a pensar.”

A auto-imagem às vezes também pesa, diz o sexólogo, pois “há pessoas que não querem ‘ficar virgens’ dessa experiência [de ser pai ou mãe] e arriscam”. A verdade é que alguns “não conseguem adaptar-se ao terramoto que é o aparecimento de uma criança”.