Família

Afinal, o que é um bom pai?

Quando nos tornamos pais, lançamo-nos numa caminhada de que só conhecemos o ponto de partida. E queremos muito que os nossos filhos sejam felizes e nos adorem. Portanto, não há mal em ter dúvidas e pedir ajuda. É isso que faz um bom pai.

Estar disponível para escutar e brincar, saber definir regras e respeitá-las, manter a coerência entre o discurso e a atitude, responsabilizar, ser democrático, elogiar, usar o humor sem ser sarcástico, aprender a negociar de forma sincera, saber dizer “não” e (claro) amar. Estas são algumas das ideias sugeridas no livro Casa de Pais… Escola de Filhos, da psicóloga e formadora parental Eva Delgado-Martins. A bem da harmonia familiar. A obra foi apresentada por Daniel Sampaio em Lisboa, no dia 14 de Março.

“Um bom pai é aquele que se preocupa, que tem dúvidas. Só o pôr dúvidas já faz dele um bom pai, porque significa que está a pensar na melhor forma de resolver uma situação que pode vir a bloquear o diálogo com o seu filho”, disse a autora ao Life&Style. E acrescentou que “um apoio técnico, profissional, é sempre uma solução de recurso e pode não ser necessário em muitos casos”.

Eva Delgado-Martins acredita no sucesso da partilha de dúvidas e experiências entre pais, por isso promove encontros entre famílias com filhos das mesmas idades. As dúvidas podem ser sobre castigos, mesadas, regras de uso da Internet, atribuição de tarefas, sexualidade, saídas à noite, drogas, mentiras, amigos, bullying, entre várias. “Muitas vezes os outros pais são os melhores para dar pistas e resolver certas situações.”

Também organiza sessões temáticas: “Sobre birras ou divórcio, por exemplo. Surgem coisas maravilhosas, soluções que resultam em famílias diferentes. Os pais pensavam que só eles tinham aquela dúvida, mas depois sentem-se acompanhados.” Na verdade, são mais as mães que aparecem do que os pais. “Eles vão surgindo, mas muito devagarinho.”

Dantes, nas famílias alargadas, a educação quase que se “fazia espontaneamente”, explica a psicóloga, “havia os avós, os tios, era uma importante rede de suporte; mas agora os pais estão muito sozinhos, não têm com quem partilhar as inevitáveis dúvidas do dia-a-dia”.

Mesmo os colegas de trabalho com filhos vão rareando e alguns dos que nem são pais não se inibem de criticar: “Há muitas opiniões. Então fizeste isto e aquilo? Não devias. Era melhor teres feito assim e assim. Se fosse comigo… E as pessoas ficam fartas de ser criticadas, vão deixando de contar e isolam-se.”

Rigoroso mas acessível

No meio de tantas obras sobre educação e família, o que tem Casa de Pais… Escola de Filhos de diferente? “Há muita literatura sobre este tema: diálogo entre pais e filhos, mas este livro tem como novidade ser acessível, mas sem perder o rigor técnico”, responde Daniel Sampaio. E continua: “A autora consegue uma tripla perspectiva: a de psicóloga, a de formadora de pais (porque trabalha em educação parental) e a pessoal (que tem que ver com a sua família, percebe-se que lidou pessoalmente com algumas destas situações). E portanto torna o livro de uma leitura acessível, como um guia para certas situações do dia-a-dia. Está um pouco organizado a partir das situações mais frequentes que os pais têm com os filhos.” O psiquiatra recorda ainda ao Life&Style que assinou várias obras neste âmbito: “Eu próprio escrevi muita coisa sobre isso. Encontrei aliás alguma coincidência entre o meu livro Lavrar o Mar e algumas coisas que vêm aqui. É sempre bom verificar que há pessoas que têm uma dimensão parecida com a nossa dos problemas, mas é um livro que está actual e que é útil.”

Não negociar demasiado

Eva Delgado-Martins, que foi professora do Instituto Superior de Psicologia Aplicada durante 12 anos, diz ter pretendido criar um livro muito prático. “Fui recolhendo dificuldades reais dos pais, fui fazendo como que um portfólio de dúvidas de hoje. Para ajudar os que estão mais sozinhos e não sabem como educar.”

Com três filhos (um de oito anos, uma de 14 e uma de 16), a psicóloga inclui a sua vivência de mãe nas reflexões e situações que sistematiza, embora não as explicite no livro. “Esta é também a minha grande experiência.” E, quando lhe perguntamos qual a sua maior dificuldade em educar, responde: “Nós não educamos sempre da mesma maneira, porque passamos por diferentes experiências da nossa vida. Também vamos aprendendo. Somos pais diferentes de ano para ano. Como os nossos filhos, vamos mudando.” Mas reconhece que talvez tenha negociado de mais: “Podia em certas ocasiões não ter negociado tanto. Devia ter dito ‘não’ mais vezes. Tinha feito bem.”

Defende a negociação sincera, porque “os miúdos têm muito boas estratégias e têm formas de resolver eficazes que nem nos passam pela cabeça”. No entanto, não tem dúvidas de que há momentos em que “é preciso dizer firmemente ‘não’”.

Doutorada em Psicologia Educacional (Educação Parental), Eva Delgado-Martins gostava de receber feedback das famílias sobre o livro, como acontecia relativamente às crónicas que escrevia para a Notícias Magazine e que deixaram de ser publicadas recentemente. “Para saber se vale a pena o que estou a fazer.” E fala da resposta em consultório: “Aí, vemos que há evolução dos pais, mesmo em poucas sessões. Há quem pense que é um processo moroso, de um ano ou mais, que é preciso muito apoio. Não é. Às vezes, bastam pequenas pistas e uma ou duas estratégias para desbloquear certas situações familiares.”

A psicóloga aconselha os pais a não deixarem chegar os problemas a níveis muito complicados de conflito. “Peçam ajuda quando as coisas ainda estão pequeninas. Os pais têm muito pouco hábito de pedir apoio. Sentem que falharam porque pensam que a educação é inata. Mas não é.” No entanto, ressalva: “Nunca é tarde. Há sempre tempo para mudar e resolver.” E hoje é um bom dia para pedir ajuda e dar início à mudança.