• Hugo Vieira da Silva
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Da ilustração à decoração

Sonhos na parede

Jorge Mateus pinta paredes. E sonhos. Ilustra o quarto de crianças com o imaginário preferido de cada uma: da floresta aos super-heróis, de Alice aos desportos radicais. Foi com um pirata desenhado para o filho que tudo começou.

“As crianças fazem-nos mudar”, “ter um filho é o melhor que nos pode acontecer”, “ele é a minha razão para fazer tudo isto”. Certezas recentes do ilustrador Jorge Mateus, 40 anos; pai de Gonçalo, três. “Pintei um pirata na parede do quarto dele. Quando o viu, ficou mudo e com os olhos a brilhar”, conta ao Life&Style. De imediato pensou que poderia levar a mesma magia a outras crianças. E assim fez. Criou o atelier O Meu Quarto É…

Agora, desenha formigas, girafas, árvores, heróis, balizas, pranchas de surf, cestos de basquete e tudo o mais que as famílias (sobretudo pais e avós) lhe solicitam. Porque querem fixar na parede os sonhos e ídolos das crianças e adolescentes das suas vidas.

Há os que desejam fazer uma surpresa à criança, os que estão a preparar o quarto de um bebé que há-de vir e os que convidam o miúdo a assistir à pintura. “Não me incomoda que estejam por perto. Uns ficam quietos a observar e outros mostram-se mais intervenientes”, descreve o ilustrador, também cartoonista e caricaturista.

“Os miúdos são espontâneos e de uma grande sinceridade. É muito engraçado trabalhar junto deles.” Um dia, uma criança até o chamou à atenção por ter desenhado uma aranha com uma pata a menos. “Tinha razão, faltava uma, só fiz sete. Pintei logo outra”, recorda divertido.

Também gosta de ver a reacção das crianças perante a surpresa. Até hoje, nenhuma protestou. “São pequenas, ficam maravilhadas. Identificam-se com aquele imaginário e gostam de o ter retratado no quarto.”

Sem cheiro nem confusão

As tintas, apropriadas para espaços infantis, não têm cheiro nem são tóxicas. Além disso, explica o ilustrador, o processo é pouco invasivo no quotidiano das famílias. “Quando pensamos em pinturas dentro de casa, começamos logo a imaginar um grande rebuliço, arrastar móveis, desarrumar tudo, esperar que o cheiro passe... Com estes trabalhos, isso não acontece. Pinto com os móveis no quarto e só ‘incomodo’ quando preciso de lavar os pincéis.”

E é com pincéis que começa por fazer o contorno dos elementos que compõem o desenho. “Quando são mais complicados, uso um lápis com a cor semelhante à tinta com que os preencho depois.”

Pintar na vertical é diferente de pintar numa folha A4, “há uma visão espacial muito diferente, é mais entusiasmante”. Também não se trata de pintura mural, “porque a parede não é totalmente preenchida” — o que poderia tornar-se visualmente cansativo para o interior de um quarto.

Também já ilustrou painéis, que depois foram colocados num sótão, “foi uma avó que me pediu um ambiente de Alice no País das Maravilhas”. Com universos cada vez mais elaborados, começou a criar “quartos 3D”, com objectos que “rasgam” a parede. “Trazemos a pintura mesmo para dentro do quarto.” Literal e materialmente. “Pode ser uma prancha de surf que salta da parede, uma bola ou um skate.” Os objectos são uma continuação da pintura. “Uma nave espacial 3D pode servir de estante, por exemplo. São sonhos sem limites.”

A partir de 250 euros (ou de 450 euros, no caso de pinturas 3D), há vários quartos-tipo à escolha, embora os clientes possam solicitar os ambientes que quiserem, de acordo com o carácter e o imaginário das crianças que os habitam. Afinal, serão elas que irão “dormir dentro do sonho”. No entanto, a maior procura incide em pinturas com animais. “Quase sempre dão-me liberdade para escolher, mas há quem indique animais específicos.” Uma vez pediram-lhe formigas. “Já tinha desenhado abelhas, mas formigas, não”, diz Jorge Mateus, que também é autor de banda desenhada.

Afastar o medo

No seu historial de ilustrar paredes, há duas experiências que recorda com muito carinho: a pintura das alas pediátricas e da maternidade do Hospital Central de S. Tomé e Príncipe e a decoração da sala de fisioterapia do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa.

“Em São Tomé, teve de ser com andaimes e com a ajuda de muitos voluntários. O pé-direito era muito alto e a extensão das salas era de umas boas dezenas de metros. Foi impressionante. Aquelas pessoas nunca tinham pintado”, conta com entusiasmo e admiração.

A experiência no IPO foi mais marcante noutro sentido, pela “grande responsabilidade” que sentiu. Sensibilizou-o o facto de saber que a pressão para que aquela sala fosse decorada tinha resultado da vontade de um casal cujo filho se atemorizou da primeira vez que lá esteve. “Era um espaço cinzento, frio. Eles não queriam que houvesse mais crianças a sentir-se assim.” Conseguiram.

Se fosse criança, o que gostaria de ver pintado nas paredes do seu quarto? “Como o meu filho, talvez também gostasse de um pirata. Mas é difícil fazer esse exercício agora. Depois de adultos, tendemos a falsear as memórias. Já perdemos a inocência.”

Gonçalo ainda não. O pirata com quem partilha o quarto é o seu “amigo imaginário”. E já tem nome: Barnabé. A expressão “falar para uma parede” ganhou um novo sentido.

Visite aqui o site do atelier. No Facebook, está a decorrer o passatempo O Sonho é o Limite, em que os jovens são desafiados a fazer sugestões criativas para um quarto. O premiado ganha um desconto de 50% na pintura e o atelier compromete-se a realizar o quarto idealizado.