• Ricardo Freitas- Até ao Fim do Mundo
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Programa Príncipes do Nada

Catarina Furtado no Sudão do Sul

O programa Príncipes do Nada (RTP1) tem a grande vantagem de ser um espaço de divulgação de histórias pessoais ou colectivas, todas inspiradoras e contadas na primeira pessoa que, apesar de informarem com o maior rigor, permitem que eu possa de alguma forma partilhar quer sentimentos quer opiniões. Perante todas as realidades a que tenho assistido no terreno - onde as coisas realmente acontecem - é impossível não deixar escapar alertas e apelos.

O Sudão do Sul é o mais jovem país do Mundo. Fomos a primeira equipa portuguesa a fazer lá reportagem já com o estatuto de nova nação e é impossível disfarçar a emoção que se sente quando se assiste ao orgulho do povo pelo facto de ter conseguido finalmente a sua independência em Julho de 2011.

O país está ainda a juntar tijolos para depois passar a governar! Sente-se isso nas pessoas, nas ruas da capital Juba e no dia-a-dia ainda incerto devido aos recentes conflitos sempre de origem étnica e religiosa. Este é um dos países menos desenvolvidos do mundo. É muito chocante ver em que condições vive a maior parte da população sul sudanesa - muito abaixo daquilo que seria aceitável para um ser humano já que 80% não tem acesso a cuidados de saúde básicos e água potável é um luxo. A taxa de mortalidade materna é considerada a mais elevada do mundo e a taxa de mortalidade infantil indica que uma em cada quatro crianças morre até aos 5 anos. Nem sequer 10% das crianças chega a completar o ensino primário! 92% das mulheres não sabe ler nem escrever.

Depois de mais de 20 anos de guerra (e mais de 50 de conflito) que provocaram milhares de mortos, deslocados e refugiados, a mais recente Nação vê agora a entrada dos países vizinhos que acreditam que podem aqui ter uma possibilidade económica. O bom e o mau mais uma vez se misturam e assim, com a pobreza extrema, o desespero (levado tantas vezes ao limite com problemas de álcool), a ignorância (falta de acesso a serviços de Educação) e outros factores, fica, como sempre, para as mulheres e para as crianças o pior e mais dramático papel. São elas as maiores vítimas quer da pobreza quer da violência.

Entrevistei meninas (e meninas de rua) que ainda crianças estão habituadas a achar que não têm direitos e que não podem nunca gostar de si próprias. Estão com onze, doze, treze anos na prostituição; são violadas aos cinco, seis anos; vendidas em troca de vacas aos dez; obrigadas a casar com homens de sessenta anos; impedidas de ir à escola, anuladas da sociedade. Acompanhámos o trabalho extraordinário que a ONG CCC (Confident Children Out of Conflict) faz no terreno tirando as meninas destes ambientes e permitindo que possam ir à escola, ter outros sonhos e oportunidades para que um dia, também elas ajudem o seu país a desenvolver-se.

A esperança média de vida no Sudão do Sul é de 45 anos, mas, apesar de tudo, espera-se que este recomeço, do zero, traga outra esperança às próximas gerações. E esse sentimento foi-me passado. Desejo que o consigamos também transmitir a todos aqueles que queiram interessar-se por uma grande fatia do mundo (os países em desenvolvimento) que cada vez mais, sobretudo devido à grande crise financeira, recebem cada vez menos apoios e estão cada vez mais pobres. As mortes que no nosso país (felizmente!) não aconteceriam, as mortes que assistimos e que poderiam ser evitáveis, são o que nos move. E todos os bons exemplos de quem anda a lutar por um mundo bem mais justo.

 

3ª Série do programa Príncipes do Nada: Reportagens feitas por Catarina Furtado, com o realizador Ricardo Freitas e o repórter de imagem Hugo Gonçalves e produzido por "Até ao Fim do Mundo" para a RTP.