O Cosmopolitan é presença constante em séries e filmes que têm como cenário Nova Iorque, como "Sexo e a Cidade"

O Cosmopolitan é presença constante em séries e filmes que têm como cenário Nova Iorque, como "Sexo e a Cidade"

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Crónica

Cosmopolitan in the city

Desde que chegámos a Nova Iorque, a única coisa que queremos experimentar é um cosmopolitan. E então apanham-nos em falso. "Não é de cá, pois não?", atiram do outro lado do balcão, enquanto colocam uma base, tal como nos filmes, igualzinho.

Somos denunciados não pelo que vestimos, mas porque antes de entrarmos já tirámos as medidas a tudo, incluindo aos lustres que gostávamos que fossem nossos, mas levá-los obrigaria a pagar excesso de bagagem, e menos ainda porque os olhos caídos denunciam noites sem dormir e pernas cansadas. Somos denunciados não porque o nosso sotaque não seja o mais perfeito de uma região que nem existe no mais recôndito interior dos Estados Unidos da América, mas porque desde que chegámos a Nova Iorque, a única coisa que queremos experimentar é um cosmopolitan. E então apanham-nos em falso. "Não é de cá, pois não?", atiram do outro lado do balcão, enquanto colocam à nossa frente uma base de copo, tal como nos filmes, igualzinho.

É só vodka, triple sec e arando, mas é só isso várias vezes. E se o primeiro é fresco e, nessa frescura, mata a sede de todas as expectativas e projecções que fizemos em todas as cenas de filmes e séries em que eles eram os protagonistas e elas - sobretudo elas - apenas a mão que embalavam o copo, o segundo é quente. Marca com fundada certeza de que sempre fomos nova iorquinos. Somos dali, daquele fundo de copo, daquela gota que ficou a marcar-nos o lábio e que, esperamos porque vimos isso no filme, seja arrumada com a língua de quem se esconde no fundo do balcão.

E ao terceiro, quando já não sabemos se fomos nós que piscámos o olho ao barman e ele respondeu com mais vodka, ou se foi ele que nos quis fazer prometer algo que não devíamos beber tão sofregamente, achamos que devemos parar.

Comemos uma azeitona porque o jantar caiu quase a seco. Comemos outra, para ver se aconchegamos o álcool que nos sobe à cabeça. Respiramos fundo e saímos para a rua, para essa oitava avenida célere, atravessada de táxis que nunca param. E antes de sequer confirmarmos se sabemos como voltar aquele bar, entramos. "Too much cosmopolitan, uh?", diz-nos a taxista. Ela chama-se Samantha? Miranda? Charlotte? Carrie? "Para onde quer ir querido?". "Para o quarto cosmopolitan, por favor", dizemos. E rimo-nos demoradamente porque também ela, quando chegou, fez isso mesmo. "Eu e as minhas amigas colocamos um pau de canela. Torna tudo muito mais excitante", aconselha.

Deixa-nos em TriBeCa, à porta de um hotel numa rua cheia de galerias. "É aqui", diz-nos a taxista. São duas da manhã. "Um cosmopolitan, por favor", pedimos. "A blue one", perguntam. "Sim, i'm feeling blue today", dizemos. Leva Blue Curacao. Fica mais ácido, torna-nos mais alerta, damos um estalido com a língua, chamamos a atenção de quem estava ao nosso lado. Trocamos nomes, lugares, copos. E um quinto cosmo. Já o tratávamos pelo diminutivo desde o meio do segundo, mas só agora, com a promessa de mais um feito com sumo de ananás, numa casa que promete ter vista para os telhados e os depósitos de água (a paisagem fétiche da cidade, como se precisássemos de provar que estamos realmente em Nova Iorque), se ganha a coragem para levar a mão mais longe do que a base do copo.

E, na manhã seguinte, apanhamos a roupa espalhada pelo chão como se fossem as últimas gotas do primeiro cosmopolitan que bebemos na vida. Sabe a vida.