A era do biberão está a terminar

A polémica estalou com um novo estudo. Alimentar os bebés só com leite materno, até aos seis meses, é mesmo bom? Em Portugal, aposta-se cada vez mais na amamentação

Uma grávida que procure informar-se sobre amamentação pode facilmente ficar confusa. Há muitos estudos sobre o leite materno. Mas muitos apresentam conclusões contraditórias. Há os que garantem que os bebés que mamam são mais inteligentes. Outros dizem que os que não mamam têm menos alergias. Há quem afirme que as mães que dão de mamar recuperam a forma mais rapidamente. E quem sublinhe que as que não dão ficam com o peito em melhor estado. Há quem sustente que os bebés que mamam correm maior risco de virem a ser obesos. E que os que não mamam ficam mais stressados...

O último estudo que veio reacender o debate sobre o leite materno foi publicado no British Medical Journal há pouco mais de uma semana por um grupo de investigadores do Reino Unido. Quase dez anos depois de a Organização Mundial de Saúde (OMS) ter declarado que a amamentação em exclusivo até aos seis meses beneficia os bebés, os cientistas, conduzidos por Mary Fewtrell, do Instituto de Saúde Infantil da University College London, vieram contrariar esta tese.

A partir de uma revisão bibliográfica, os investigadores reconhecem os benefícios da amamentação, mas defendem que a partir dos quatro meses o leite materno já não é suficiente para o bebé e deve ser complementado com outros alimentos. Apesar dos benefícios da amamentação, dizem, o facto de um bebé ser alimentado só com o leite materno durante os primeiros seis meses de vida pode fazer aumentar o risco de anemia, de doença celíaca e de alguns tipos de alergia, nomeadamente alimentar.

A polémica não se fez esperar. "Os novos conselhos sobre amamentação deixam as mães zangadas e confusas", noticiou há dias o jornal The Independent. E o Royal College of Paediatrics and Child Health foi uma das muitas instituições a criticar o trabalho da equipa de Mary Fewtrell.

Vários especialistas ouvidos pelo Life&Style garantem, contudo, que os estudos pró-amamentação são mais fidedignos, que o império do biberão é cada vez menos uma realidade e que o número de mães a quererem amamentar em exclusivo até aos seis meses e a terem sucesso tem crescido.

A secretária da mesa do Colégio de Especialidade de Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica da Ordem dos Enfermeiros, Teresa Félix, lembra que um único documento não é suficiente para alterar toda a prática que tem sido desenvolvida. Para as mães que estão neste momento a amamentar ou para as futuras mães, "o mais importante é manter a amamentação mesmo que se introduza outro alimento".

Teresa Félix diz que "o leite materno é fundamental em termos nutricionais e um alimento que é impossível igualar". Uma opinião corroborada por Alexandra Bento, presidente da Associação Portuguesa dos Nutricionistas. 

Sobre a possibilidade de introduzir alimentos mais cedo, a partir dos quatro meses, Alexandra Bento entende que é necessária mais evidência científica, mas diz que "o mais importante é promover o aleitamento materno independentemente da altura em que se introduzem alimentos" e pugnar por "uma alimentação diversificada" para toda a família.

"Não há leites fracos"

Cláudia e Miguel Costa, de 37 e 35 anos, respectivamente, são o exemplo de que a maternidade está a mudar e de que a amamentação já voltou a ser entendida como algo natural, depois de à volta da década de 1970 ter sido apelidada de primitiva.

A primeira filha do casal nasceu em Dezembro de 1999. Na altura, a preocupação era sobretudo o parto, pelo que Cláudia nem pensou muito sobre o processo de aleitamento. Mas Luana não parava de chorar e, seguindo um conselho médico, Cláudia começou a dar-lhe um suplemento. "Nunca pensei que a amamentação pudesse ser um problema. Durante a gravidez a mulher foca-se muito no parto e mesmo as aulas de ginástica insistem mais nessa parte. A Luana tinha fome e dei-lhe suplemento. Ainda não tinha nem um mês quando deixei de dar de mamar, convencida de que o meu leite era fraco. Hoje já sei que não há leites fracos", conta.

Depois de Luana nasceram Laura, em 2002, e Inês, em 2004. Também com a segunda e a terceira filhas a amamentação não conseguiu superar a prova do primeiro mês e Cláudia convenceu-se de que o problema era seu. "Os hospitais eram muito diferentes. Nasceram todas na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, mas na altura não havia grande esforço para as mães amamentarem e só depois da terceira filha eu percebi que estava a fazer tudo errado. Deve deixar-se que o bebé esvazie completamente a mama antes de mudar para a outra e eu dava cinco ou dez minutos e trocava, porque quando a Luana nasceu me tinham dito que era assim. Agora a maternidade está muito diferente e há até um cantinho da amamentação. As enfermeiras explicam tudo às mães e até disponibilizam uma linha telefónica."

No caso de Cláudia, à quarta é que foi de vez. Teresa, a última filha do casal, nasceu em Março de 2010 e Cláudia preparou-se. "Informei-me mais e juntei-me à Liga La Leche, uma associação que ajuda as mães neste processo, e tenho assistido a conferências."

Cláudia chegou mesmo a recorrer a conselheiras de amamentação profissionais certificadas por entidades que apliquem as regras da Unicef (o Fundo das Nações Unidas para a Infância) e da OMS. E a preparação resultou em pleno. A pequena Teresa continua a mamar e até perto dos sete meses não conheceu outro alimento para além do leite da mãe.

Para a pediatra Leonor Levy, que acaba de lançar o livro Um Acto de Amor Tudo o que precisa de saber para amamentar o seu bebé com sucesso (Editora Esfera dos Livros), o caso de Cláudia é um excelente exemplo de que as coisas estão a mudar. "Não faz sentido pedir-se provas sobre os benefícios da amamentação quando é por causa dela que a humanidade existe", sublinha a especialista, que, contudo, é contra qualquer pressão no sentido da amamentação. "As mães quererem é um pré-requisito essencial e mais vale um biberão bem dado e de boa vontade do que uma mamada que seja um suplício."

Mudanças nos hospitais

Para Leonor Levy o mais importante é que os profissionais de saúde sensibilizem as famílias para os benefícios da amamentação e para o facto de "o leite vir da cabeça", isto é, que as ajudem no seu projecto e mostrem que querer é poder. Mas a pediatra insiste que uma mãe que não consiga dar de mamar "não deve ficar com qualquer sentimento de culpa e a achar que o seu bebé vai ser pior do que os outros". O importante é que não desista por falta de informação e de ajuda.

"Se soubesse o que sei hoje tinha dado de mamar a todas. É um processo fantástico. A Teresinha, quando aos seis meses tentámos introduzir alimentos, continuava a preferir o meu leite e hoje ainda mama. No trabalho uso uma bomba para tirar leite e mesmo as papas no infantário são feitas com o leite que eu mando", refere Cláudia, que reconhece que na empresa pública onde trabalha na área de recursos humanos tem condições para tirar leite e local onde guardar, visto que está sozinha num gabinete.

Até quando vai dar de mamar? "Isso é enquanto a Teresinha quiser. Enquanto ela quiser eu ofereço", conta Cláudia, que tenciona voltar a dar de mamar se tiver mais filhos. Mesmo assim diz notar que já começa a haver alguns olhares de lado por amamentar um bebé de quase um ano, o que diz ser fruto de as pessoas terem muitos preconceitos e de pensarem que os bebés desta idade mamam "por vício".

O que se passou com Cláudia e Miguel é um reflexo das mudanças que têm acontecido nos hospitais portugueses e de medidas como os Hospitais Amigos dos Bebés. Este programa, lançado pelo Governo em 1992, prevê a acreditação das unidades de saúde que concretizem dez medidas definidas pela OMS e pela Unicef e que passam, por exemplo, por dar informação às mães sobre amamentação, fornecer formação aos profissionais de saúde, não dar chupetas aos bebés até que saibam mamar e só disponibilizar suplementos quando há indicação médica expressa. Em Portugal existem seis Hospitais Amigos dos Bebés: Garcia de Orta, em Almada, Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra, Hospital do Barlavento Algarvio, em Portimão, Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, Maternidade Júlio Dinis, no Porto, e Hospital Fernando Fonseca, na Amadora.

OMS responde a cientistas

Mas será que houve diferenças do ponto de vista da saúde entre Luana, Laura, Inês e Teresa? "Coincidência ou não, a Teresinha só ficou constipada pela primeira vez aos oito ou nove meses e as irmãs aos quatro já tinham feito antibióticos", sublinha Cláudia, que compara o leite materno a uma primeira vacina.

Para a OMS não há coincidências. Em 2002, a organização estabeleceu recomendações mundiais no sentido de os bebés serem exclusivamente alimentados com leite materno durante os seis primeiros meses de vida, podendo a amamentação prolongar-se como complemento até aos dois anos, apontando vantagens nutritivas que influenciam o crescimento e a imunidade do bebé.

Agora, na sequência do estudo publicado no British Medical Journal, a OMS emitiu uma declaração onde reafirma que "a amamentação em exclusivo até aos seis meses é melhor para os bebés em todo o lado", sublinhando que procedeu, em 2009, a uma revisão sistemática das provas científicas, que vieram confirmar as correntes recomendações. "As vantagens incluem um risco mais baixo de infecções gastrointestinais para o bebé e uma perda de peso mais rápida para a mãe após o nascimento", lê-se no comunicado da OMS, que nega também eventuais problemas com alergias ou no crescimento.

Por cá não há dados muito fidedignos mas, no ano passado, foi criado um Observatório da Amamentação e em meados deste ano deverão ser divulgados os primeiros resultados. De momento, algumas estimativas da Direcção-Geral da Saúde (DGS) indicam que 85 a 90 por cento dos recém-nascidos são amamentados à nascença, mas que metade das mães desistem ao fim do primeiro mês. E ainda não se conseguiu que pelo menos 50 por cento das mães mantenham o aleitamento até aos três meses.

Para Adelaide Órfão, enfermeira da divisão de Saúde Reprodutiva da DGS, os novos dados vão ser essenciais para perceber as diferenças entre hospitais e regiões e arranjar formas de cumprir aquelas que são as recomendações da OMS em matéria de aleitamento.

A enfermeira, membro da Mama Mater (Associação Pró-Aleitamento Materno em Portugal), que nasceu no Centro de Saúde da Parede e arrancou oficialmente em 2004, acredita que o papel dos profissionais de saúde é fundamental. "Não podemos negar que o leite materno é um alimento vivo e riquíssimo que permite passar o património imunitário da mãe para o bebé. Que outro alimento varia de sabor e nutrientes consoante as horas do dia e ao longo dos vários meses do bebé?"

Texto originalmente publicado no P2