Lisboa, a cidade que inventou uma ciência

"A Invenção de Lisboa" é uma "narrativa histórica" sobre a cidade. O autor deambula e escreve, na primeira pessoa, coisas que um historiador não poderia escrever, mas gostaria. Não é um livro de divulgação, porque contém teses e investigação originais. Não é um livro de História, mas contém mais História do que um livro de História. José Sarmento de Matos explica porquê.

Lisboa é a única cidade para a qual foi inventada uma ciência. Não pode apenas ser estudada pela História ou pela Geografia. É como se essas disciplinas estivessem preparadas para explicar o conjunto da realidade humana, excepto certas zonas especiais. Nessas, as categorias convencionais não se aplicam. É necessário criar todo um sistema de conhecimento para conhecer esses sítios estranhos, que não se submetem à ciência, antes submetem, eles próprios, a ciência. Lisboa é assim e a ciência que a estuda é a Olisipografia.

José Sarmento de Matos é olisipógrafo e escreveu "A Invenção de Lisboa". Foi sendo apanhado, aos poucos, por esse ramo do saber que Lisboa exigiu para si própria. Quando em 1994 escreveu, por encomenda da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), "Uma Casa na Lapa", já estava a entrar na especialidade. Começou por contar a história de uma casa, mas a narrativa foi alastrando, pela vizinhança, pelo bairro, pela cidade e o seu passado. "Lisboa é uma cidade ondulante", explica. "Convida à deambulação."

Lisboa puxou por ele, pela sua curiosidade e sensibilidade estética. A formação em História da Arte levava-o por certas rotas de arquitectura, mas a cidade fez o resto: em cada muro havia muito mais do que pedras. Havia tudo. "Lisboa é uma cidade barroca, porque é surpreendente. A cada esquina há uma surpresa. Há ruas estreitas que desembocam em praças desmesuradas, há edifícios monumentais em lugares minúsculos e esconsos. Lisboa tem a mania de meter o Rossio na rua da Betesga. Há sempre coisas escondidas. Guardadas, viradas para dentro. Há paredes povoadas, grandes muros com janelas pequenas, pátios resguardados. Diz-se que são as influências árabes. Na verdade é a cidade romana, que os árabes copiaram. A cidade mediterrânica."

É esse tecido urbano, semelhante ao de Roma, Nápoles ou Istambul (ou melhor, Constantinopla) que constrói o magnetismo de Lisboa. E também o passado que habita o presente, e os mitos que vivem nas ruas. Um deles é o de Ulisses, que, ao longo dos séculos, a cidade foi inventando, reabilitando, interpretando. Surgiu, segundo Sarmento de Matos, "pela mão dos romanos, para valorizar a gesta grega, e inscrever a cidade no mundo mediterrânico". Mas sobreviveu até no período muçulmano, por trás das histórias de aventuras e expedições marítimas que sempre estiveram associadas a Lisboa. Histórias verdadeiras ou inventadas, mas que sempre exerceram uma função identitária na metrópole atlântica. Lisboa era vista como lugar de fronteira entre o mundo mediterrânico e o mundo do Norte, entre o continente europeu e o oceano, no que este representava de desconhecido.

Do tempo dos muçulmanos, há o registo de uma expedição de marinheiros, que se terão aventurado pelo Atlântico, à procura de novas terras. Terão sido liderados por um comandante pirata chamado Kaxkax (o fundador de Cascais?), que vivia, assim como os marinheiros seus apaniguados, na rua paralela ao rio, ao fundo de Alfama. Chamava-se Rua dos Aventureiros, por causa dessa e de outras expedições marítimas, precursoras das epopeias dos séculos XV e XVI. Também nessa época dos descobrimentos o mito de Ulisses desempenhou a sua função. É o exemplo de uma força invisível embora efectiva, cuja importância não se apreende nos arquivos, mas apenas na deambulação. Há outras realidades que só se compreendem nos lugares, nesses caminhos onde "as coisas coabitam. Basta esgravatar um pouco. Porque as épocas não são estanques, como as aprendemos na escola. As épocas influenciam-se umas às outras, entram umas nas outras. E tudo isso constitui a realidade de uma cidade, e sente-se nas suas ruas". Por exemplo: a baixa pombalina é uma realidade definida, com uma história e características específicas, mas... "ao caminhar pela Rua Augusta percebe-se que aquelas são as vias romanas".  

História? Ciência?

Em vez da noção de "camadas", usada pelos arqueólogos, Sarmento de Matos prefere um conceito roubado ao cinema: o "raccord". Mais do que no campo, "onde a vida é cíclica, a cidade é uma entidade. A cidade é a superação da Natureza, pelo Homem". Por isso tem uma vida própria. "Fernão Lopes atira-nos isso à cara quando, num rasgo de génio, põe Lisboa a falar. Lisboa é uma mulher que fala com ele e com quem ele fala."

Sarmento de Matos sempre gostou de vaguear pela cidade. Fazia-o como método, nos seus estudos sobre os monumentos. E ia escrevendo o que via e compreendia, como um registo pessoal, para pôr alguma ordem nas observações. O resultado foi um texto histórico, sem ser História, uma descrição metódica da realidade, sem ser Ciência.

"Esse era um grande problema que se me colocou. Que nome dar àquilo?" Principalmente quando, há oito anos, depois de um encontro com Maria do Rosário Pedreira, da Temas e Debates, ficou decidido publicar aqueles registos sob a forma de uma história de Lisboa em quatro volumes. O primeiro livro dessa "Invenção de Lisboa" seria o que já estava escrito, que começa nas origens da cidade e termina nos primeiros tempos cristãos, após a conquista, por D. Afonso Henriques, em 1147. Intitula-se "As Chegadas". Estava pronto mas, para ser publicado, teve de esperar até que o segundo volume estivesse concluído. Nesse interim, Sarmento de Matos deu-lhe a forma definitiva. "Estava escrito como um livro de História convencional", diz.

Mas não o era. Incluía observações pessoais, especulações, cenas imaginadas. "Os verbos estavam no passado, e o narrador falava na primeira pessoa majestática. Dizia: 'Nós vimos...' Não: eu vi! Passei tudo para o presente e para a primeira pessoa do singular."

Ao fazer isto, transformou o livro. "Ficou completamente diferente." Certas ousadias tornaram-se possíveis. "É um género que permite arriscar, interpretar. Mas não é divulgação histórica, porque introduz coisas que nunca foram ditas. E é um livro sério, que propõe teorias interpretativas." Mas não é um livro de História. Se o fosse, o autor teria de esconder muito do que descobriu. No entanto, os historiadores lêem-no com interesse. No fim, não o comentam. Não aprovam nem reprovam o que lá está de original. Não subscrevem, nem rebatem. O autor não percebe porquê. "Talvez desse muito trabalho levar as teses a sério. É mais cómodo desvalorizar isto como uma brincadeira."  

História, uma experiência

Deu-lhe prazer escrever o livro assim. Mas não foi para brincar. "Os historiadores esquecem muitas vezes que a História é também uma escrita. Não acredito muito na História como Ciência. É um testemunho individual, uma experiência." Uma das pessoas a quem pediu ajuda para lhe rever e também para definir o livro foi António Mega Ferreira. "Ele disse-me que isto, em França, se chama um 'recit'. Não há equivalente em português. Chamei-lhe narrativa histórica."

Uma das características da narrativa é ter personagens. Sarmento de Matos procura-as em todo o lado. Mas não as do costume. "Dantes a História era oficiosa, ou oficial. Centrava-se no rei. Depois, privilegiou-se a estrutura, a história material. Pecou-se por excesso. Esqueceram-se as pessoas. Agora, é preciso voltar a elas, mas às pessoas comuns, que são quem faz a História."

Outro elemento da narrativa é a perspectiva. No seu "recit", Sarmento de Matos reflecte sobre o que vê, divaga. Mas usa outros recursos, além do monólogo interior. Em grande parte do livro, segue a narrativa de um outro observador, um normando do século XII que descreveu a cidade e a sua conquista aos muçulmanos, como se fosse um repórter. Trata-se de um cruzado que, em 1147, escreveu uma carta a um prelado inglês, Osberno, dando conta do que se passava. A missiva tem a assinatura "R.", simplesmente. Mas é tão rica em pormenores e observações inteligentes, que revela tanto de Lisboa como do autor. No seu livro, Sarmento de Matos conversa com R. Imagina-o em vários locais da cidade, adivinha os seus pensamentos, prolonga os seus comentários e conclusões. E usa isso como método. Antes do mais, estudou o "universo mental" do cruzado. A partir daí, percebeu que ele tinha lido Santo Isidoro, e também que conhecia e se relacionava com S. Bernardo de Claraval, o teórico do "espírito de cruzada" e do fundamentalismo cristão da época. Essas conclusões permitem perceber as motivações dos cruzados que ajudaram Afonso Henriques na conquista, e dos objectivos e métodos dessa conquista.

"Só através dessa carta, do cruzado R., sabemos que a cidade foi saqueada pelos cruzados", diz Sarmento de Matos. Porque toda a historiografia ulterior ocultou não só os acontecimentos, mas também a realidade que os cristãos encontraram na cidade cercada e conquistada. "Na Lisboa muçulmana, pelo menos metade da população era cristã. Eu acho até que era bem mais de metade. Os muçulmanos eram tolerantes, não tinham vontade de converter os conquistados, por uma simples razão: só os não-muçulmanos pagavam impostos. Convinha, portanto, que fossem o mais numerosos possível."

Mas este facto foi escondido, bem como o de que, em Lisboa, havia um bispo. Uma das primeiras acções dos homens de Afonso Henriques foi decapitá-lo. "A igreja moçárabe era vista como um perigo", explica. Porque teria crenças e ritos "impuros", de influência muçulmana, é uma das explicações possíveis. A outra, que Sarmento de Matos é o primeiro historiador a admitir, é a eventual proximidade entre a igreja moçárabe e a igreja bizantina, numa época em que tinha ocorrido o grande cisma do Oriente. "Os bispos portugueses temiam que a igreja cristã de Lisboa se aliasse à igreja do Oriente." Por isso, toda a estrutura eclesiástica de Lisboa foi desmantelada, grande parte dos cristãos exterminados. Para novo bispo, foi chamado um inglês, Hastings, amigo de R., próximo dos beneditinos e de S. Bernardo. A Sé de Lisboa, construída onde terá sido a mesquita, "foi um statement". Uma arquitectura pesada, própria do Norte da Europa, sem nada a ver com a tradição mediterrânica da cidade.

Sarmento de Matos imagina R. a ouvir a conversa de um grupo de lisboetas, que comentavam, em tons pouco simpáticos, a construção da sé. R. ouviu-os a criticar aquele edifício estranho, que viam como uma imposição ideológica do novo poder. Compreendeu o que eles queriam dizer, porque tinha a perfeita noção da "limpeza étnica" e religiosa que estava em curso. E também porque, ao contrário do que se pensa, a língua que esse grupo de cidadãos de Lisboa falava - a língua da Lisboa que, apesar de sob domínio muçulmano, nunca perdeu o contacto com as regiões e populações circundantes - não seria muito diferente da sua.