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Estudar tem mesmo de ser um sacrifício?

Desde que entramos na escola, no 1.º ano, que nos deparamos com a obrigatoriedade de fazer os famigerados TPC. É-nos dito que temos de os fazer para nos prepararmos para o progressivo aumento de trabalho e de responsabilidade ao longo do nosso percurso escolar.

O problema grande é que a maioria dos TPC são um sacrifício para os alunos. Os nossos país sabem disso e os nossos professores também, mas tem de ser. A história do “faz o TPC e depois podes brincar”, induz uma obrigatoriedade em realizá-los, uma visão negativa daquilo que é o estudo.

O problema é mesmo mais fundo. Os programas do ensino básico e secundário são aberrantes. Decora-se muito e percebe-se pouco, alimenta-se o discurso do “é assim porque sim”, continua-se com o sistema tradicional de aula que desmotiva os alunos e (penso eu) é desprestigiante para os professores.

A cereja em cima do bolo são os exames. O princípio por trás dos exames é o da uniformização do conhecimento, uma maneira de diminuir as diferenças entre ricos e pobres, entre escola pública e privada. O princípio é bom, mas a realidade é outra.

A maioria dos professores “corre” para acabar de dar toda a matéria. Muitas vezes privilegia a matéria que “sai” mais em exame, descorando o interesse que os alunos têm por este ou determinado assunto. Ainda para mais, é uma mentira bem montada a história de que reduz o fosso entre a educação dos ricos e dos pobres. Todos sabemos que os colégios privados têm maior possibilidade de explorar o horário escolar para preparar os alunos, que as famílias com mais dinheiro vão poder gastá-lo em explicadores, em livros de apoio, em materiais que tornarão a aprendizagem mais rápida e eficiente.

Penso, por isso, que o fim dos exames em todos os ciclos não era um sinal de facilitismo, mas um sinal de democracia e de responsabilização de toda a comunidade escolar pelos resultados dos alunos.

No ensino superior a canção é outra mas está novamente desafinada. Portugal é dos poucos países da União Europeia que adopta o sistema de propinas. Este, além de ser injusto é um atentado à liberdade.

Sei que pegar numa situação individual nunca é um bom argumento, no entanto, vou recorrer à minha situação porque penso que é bastante ilustrativa do que quero dizer: Eu escolhi um curso de que não gosto e para o qual não tenho aptidão absolutamente nenhuma. Por ser de uma família com recursos posso dar-me ao luxo de mudar de curso para o ano. A minha família consegue suportar mais um ano de propinas. As famílias com rendimentos mais baixos nunca o conseguirão e existirá sempre a pressão para continuar, mesmo que não se goste.

Defender-se-ão dizendo que para esses casos existem bolsas de estudo. O problema é que essas chegam muitas vezes tarde e não são suficientes para garantir o pagamento das propinas, dos livros e dos demais materiais que um estudante universitário necessita. A liberdade de mudar de curso é, por mais que o tentem negar, proporcional ao rendimento da família.

Concluindo, que o texto já vai longo, creio que todo o sistema de ensino deve ser reformulado para que a escola e a universidade sejam verdadeiros espaços de aprendizagem e de realização do ser humano.

Sou o Afonso Jantarada, tenho 18 anos e frequento o curso de Ciências da Saúde na Universidade de Lisboa. Sempre gostei de escrever porque é a forma de pôr no papel tudo o que sinto, tudo aquilo que imagino e que sonho, tudo aquilo que quero que o mundo seja.