Rui Gaudêncio

Não sou um génio da Física ou da Química

Ouvem-se os sinos da igreja a tocar o “Avé Maria” de Fátima. “A 13 de Maio…” Mas hoje é dia 18 de Junho e há meia hora que começou o exame de Física e Química (FQ) que eu, entretanto, já terminei. E não, não é por ser um génio da Física ou da Química que ocupei duas páginas com 15 respostas de escolha múltipla – por responder ficaram 14 que não sei resolver… Nem uma? Nem uma.

A culpa é minha, mas não é só minha. Não sou nenhum génio a FQ e, na minha opinião não preciso de o ser; mas é isso que, aparentemente querem de mim. Na verdade, eles não querem génios da FQ, mas gente quadrada que não pense mais alto do que eles. Eles – os senhores que mandam no mundo, os que decidem, os que fazem as regras, mas também os que as cumprem cegamente –, querem quadrados que trabalhem de acordo com o paradigma corrente e que, de preferência, não o questionem.

Se é um desses eles que querem quadrados, se é um desses quadrados ou se os apoia, pode parar de ler porque este é um texto com o qual vai discordar ou, muito provavelmente, não vai compreender.

Peço desculpa por não ser das Ciências Exactas. Bom, na verdade, não o lamento nem um pouco. Lamento terem-me obrigado a escolher uma área aos 13 anos. Acreditavam mesmo que eu ia fazer uma escolha acertada? Se o leitor que me lê não sabe quem é – e se pensa que sabe, muito provavelmente está a enganar-se... –, como é suposto uma criança, que ainda não acabou de o ser, saber?

eles deviam pedir desculpa pela sua falta de compreensão. No fundo, eles sentem-se miseráveis. Nem sequer gostam de crianças ou de adolescentes – têm demasiada vida, as suas cabeças ainda não são quadradas. Somos apenas caras jovens que lhes passam pela frente, todos os anos. Não nos vêem e quando nos vêem, invejam-nos ou, pior, ignoram-nos. Somos um número ao qual corresponde uma avaliação. Não somos seres humanos a quem se pode estender a mão. “Por quê ajudar-vos?”, pensam eles. Por quê, se nem sequer sabem quem somos, com o que sonhamos. Eles não querem que sonhemos.

Somos números e, por isso, somos tratados como números. E, por isso, podemos ser prejudicados sem que eles percam o sono, porque não nos vêem. Eles têm pequenos mas grandes poderes e, estupidamente, têm a nossa vida nas mãos.

Eu faço parte de uma minoria, aquela que procura ser diferente, fazer a diferença. Pode ser em vão… Eles já se esqueceram que os paradigmas mudam. Esqueceram-se que há mudança quando se torna difícil chutar para debaixo do tapete tantas pequenas anomalias, como eu.

Ainda tenho mais uma hora e um quarto dentro desta sala, onde escrevo nesta folha de rascunho com o carimbo da escola no canto superior direito e a assinatura da professora vigilante. Muito tempo sem nada para fazer, sem a possibilidade de preparar-me para o exame seguinte, Biologia e Geologia.

Uma hora e um quarto… Em dez anos de escolaridade nunca tive um lugar à janela. Hoje, encosto o queixo ao parapeito e olho através do vidro. Um vento leve faz os ramos mais altos dançarem. A cruz no cimo da torre da igreja sobressai de entre os telhados das casas. Um céu azul tão limpo e o sol a bater nas janelas do outro lado da rua. Parece um quadro a que apenas o voo dos pássaros dá vida.

Quase que consigo abstrair-me do nervosismo sufocante que enche a sala. A ânsia domina as canetas que correm nas folhas do ministério. Os dedos impacientes teclam com força as calculadoras, à procura de respostas. Um movimento que nada me diz e não posso sair daqui.

Não sou a única perdida na intenção de resolver o enunciado. Mas sou a mais perdida… Não sou nenhum génio da Física ou da Química, já o confessei, mas acredito que sou capaz de fazer muito mais coisas interessantes e fascinantes do que responder a 16 páginas de exame.  

Nota (publicada dia 25/7/2015, às 11h55): A aluna tem 15 anos e está no 11.º ano de escolaridade porque no 1.º ciclo passou um ano à frente, conforme previsto na lei para casos excepcionais. Por isso fez a sua escolha, no 9.º ano, com 13 anos.

Já tive a minha quinzena de Outonos e por mais que deseje que o Verão não acabe, este termina e chega mais um aniversário. Sou a Leonor Castelo, tenho 15 anos, vivo em Lisboa e ando à procura!